segunda-feira, julho 31, 2006

FUI CONVERSAR


Gosto de ir ao campo. A paisagem verde deixa-me calma, sobretudo quando vou à procura de qualquer coisa que os aglomerados de cimento não me deixam ver. Também gosto do mar, ou não fora eu de um signo de água…

Mas a minha ida à Lezíria tinha como finalidade dar dois dedos de conversa. E encontrei mesmo quem precisava: uma Vaca.

A manada não era muito grande, mas uma salientou-se do grupo, quer fosse por curiosidade, quer fosse mesmo, para correr com a intrusa, que era eu….

Mal a cumprimentei, pareceu-me responder-me com um mummmm muito prolongado, mas que me deu azo a encetar a conversa a que me propusera, quando estacionei o carro à beira do imenso campo de pasto.

Amistosamente deixei que matasse a seu interesse e expliquei-lhe que não lhe iria fazer mal, mas queria perguntar-lhe o que pensava dos seus predadores homens. Já alguma vez lhe ocorrera que não passava de um mero objecto de valor económico e nutritivo do Homem?

Perguntei-lhe se sabia que a sua pele peluda servia para muitas coisas, sobretudo, para calçado…. E os cornos? Aí, fez um movimento de cabeça, como se se tivesse apercebido que pesavam mesmo… e expliquei-lhe que há cabos de facas, que são dessa sua parte nobre…

Perante alguns dos meus comentários a amiga Vaca pareceu indiferente, e petiscando a ervinha a seus pés, quase parecia me mandar passear…

A conversa estava a deixar-me cada vez mais empolgada, pois que para além das mordiscadelas na erva, ela apenas ia fazendo os seus mummmmmssssss, como se apenas dissesse “sim!”

Decidi ir mais fundo na conversa e perguntei-lhe se já havia comentado com as colegas, que os homens, para além de se alimentarem com a sua carne, o seu leite e usarem a sua pele e cornos, se entretinham pelos cafés, muitas vezes sem quaisquer outras finalidades que não a de comentar outros que aí entram, na política, a verem onde têm mais protagonismo, na banca, onde procuram usufruir de maiores lucros, na Internet, pescando aqui e além textos de outros e copiando, mostrando que são muito bons a mostrar o trabalho dos outros… e depois, sem muitas vezes saberem a fundo de determinados temas e atrevendo-se a falar de mentes poluídas, de poetas, de compositores… de coisas que infelizmente, apenas uma faixa muito estreita dos homens sabe, eventualmente, o que possa ser…

A minha interlocutora, parecia atónita. Deixou-me falar, atendeu a todas as minhas solicitações de atenção e daí a algum tempo, como que cansada de me escutar, deu meia volta, deixando no ar o seu característico mummmm, à laia de boa tarde e passe muito bem…

Não obtive muitas conclusões da minha conversa com aquela Vaca, mas pelo menos senti-me bem comigo, porque lhe deixei uns quantos alertas no que refere ao seu principal predador…


31.07.06

quarta-feira, julho 12, 2006

EXÉQUIAS!

Magda telefonou-me muito excitada, porque finalmente havia ultrapassado todas as barreiras que a impediam de realizar o que mais havia almejado desde 1978.

Pediu-me que a acompanhasse no dia onze, pois o funeral realizar-se-ia a meio da tarde.
Disse-lhe que era impossível, pois tinha agenda cheia e transferir sessões assim com tão pouco tempo, poderia retumbar numa confusão imensa.

Acabei por ceder. Afinal fazia o seu acompanhamento há mais de dez anos. Durante esse acompanhamento, houve mais do que três deslocações a Azóia. Era tempo de pormos as coisas nos seus devidos lugares e era sobretudo tempo para que Magda encetasse a nova vida com que tanto havia sonhado.

Magda esperou-me no parque de estacionamento. Deu-me o braço e caminhou a meu lado, muito séria e compenetrada.

Quando chegámos à porta do Cemitério, estavam em fila três carros funerários, tão carregados de rosas vermelhas, que me deixaram estupefacta.

“Todas, são os minutos em que nunca esqueci quem mais amei a vida toda…” disse baixinho ao meu ouvido.

Entretanto explicou-me que lá na Azóia o espaço havia sido solicitado e por esse motivo, quem reclamasse a ossada, poderia transladá-la para o lugar de preferência. Procedeu aos requisitos necessários e aqui estavam os restos do seu amado, para serem cremados, junto das rosas.

Eram mais de quatro mil rosas… e a fumaça branca que subiu em espiral para o céu, deixou um perfume a “Sky” a pairar no ar, que me fez chorar pela saudade que também tinha dentro de mim…

Creio que deixei ir a minha rosa junto com aquelas… Paz ao que não mais terá retorno!

Quando saímos, e por imposição do pessoal, porque iam fechar, fomos para casa de Magda, onde uma vez mais folheamos o álbum das fotos, que religiosamente continuava sobre a camilha da sala…

Espero que, finalmente, Magda seja feliz!

12.07.06

ESTA TARDE!


Lúcia (nome fictício) tinha a sessão marcada para as dezasseis horas, mas veio meia hora mais tarde.

Como sempre, muito bem cuidada. Como se diz actualmente, muito produzida. Ares de grande dama, num perfeito faz de conta, porque esta pessoa está a passar um momento de grande perturbação.

Com um casamento com mais de vinte anos e com um filho, que foi viver com os avós para a Suiça, por não querer estudar mais, vê-se diariamente confrontada com o seu papel de mulher fêmea, que a deixa insegura e com uma auto-estima muito baixa.

Lúcia veio para conversar, para ver se encontrava o fio da meada que estava emaranhada há tempo demais.

Apoiar uma pessoa que se refugia em químicos, para não se aperceber que para além de cozinhar as suas pizas, as saladas e limpar o pó, só serve para o marido se satisfazer fisicamente, pois que o senhor em questão, mais culto, vive para a sua profissão e para os seus negócios, que diz serem para manter os luxos da esposa, é extremamente difícil. Mas finalmente, Lúcia entende que toda a sua problemática vida, está contextualizada na sua vida em geral e a sua sensação de não servir para nada que a preencha, tem de ter um fim, pois começou a não aceitar a idade que tem, sentindo-se inútil e admitindo que o marido a vai pôr de parte, encontrando alguém mais jovem e com outros atributos.

Depois de ouvir Lúcia por meia hora, sem a interromper, sugeri que podia ocupar o seu tempo dedicando-se a aprender qualquer coisa que a satisfizesse, para aplicar esse conhecimento em um qualquer hobby, que a fizesse ultrapassar a sensação de vazio.

Sugeri que fizesse voluntariado com crianças ou com pessoas que necessitam de companhia, mesmo sem estarem doentes. Enfim, fui dando pistas, para que daí lhe surgissem ideias, mas sempre aquele olhar distante, como se procurasse algo num ponto indefinido de um espaço que não estava a ver.

Lúcia acabou por se despedir até à próxima semana, dizendo que tinha uma coisa para me contar, mas que para isso tinha de estruturar os mecanismos que a deixassem desinibida e a levassem a ser clara para não entrar em conflito com ela própria, como acontecia muitas vezes…

E…. foi o caso mais marcante desta tarde: há aqui uma velada violência conjugal!

11.07.06

terça-feira, julho 11, 2006

E foi assim que passei a saber o que atormentava a minha curiosidade…

Entrou pela porta de rompante. Puxou a cadeira e tossicou e abriu a boca desmedidamente, num bocejo deselegante, deixando ver uma dentadura descuidada, diria mesmo que tive nojo…

Decididamente, uma vez que veio até aqui, em que posso ajudar, foi tudo o que me ocorreu dizer…

Nada de especial, respondeu prontamente, acrescentando que já tomava mais de uma dúzia de comprimidos por dia, mas agora era demais, não estavam a fazer mais efeito…
Mas, tive de informar que não passo receitas e muito menos sou de opinião, que as pessoas se refugiem em drogas, para ultrapassarem as suas dificuldade psicológicas (as suas frustrações e todo um manancial de situações que só com inteligência podem ser ultrapassadas), não disse, pensei…

No meio desta catadupa de frases, perguntou-me pela pessoa X. Respondi-lhe que não sabia, pois não posso saber de todas as pessoas que são do relacionamento de tal personagem.

Depois de outras banalidades, à laia de confissão, volta a perguntar pela tal pessoa conhecida e se eu houvera lido os seus últimos escritos… no mínimo estranhos…. Mas como poderia eu saber? Nem conheço a pessoa em questão (?)…

Depois revelou que fora convidada para o enlace matrimonial do ex. Havia um bom relacionamento posterior à separação… que estranhas formas de vida… há um ex. um presente e desejos de um futuro… que revelações! Estou mesmo a atravessar a maior paixão da minha vida, dizia com olhos saindo das órbitas, como um bêbado que quer passar por meio de um candeeiro…

Mas não ficou por aqui a consulta. Porque vieram outras e outras frases que me deixaram atónita… e sempre a pergunta disparatada se eu tinha falado com a pessoa X, que não me explicou bem se era quem era, ou se não era mais do que o quem eu estava a supor…Mesmo já tendo ouvido dezenas e dezenas de pessoas, esta estava mesmo obcecada… Como é estranho tudo isto!

Enfim, depois de acalmar uma “paciente” tão complicada, tive de mentir, dizendo que tudo se ia recompor… nem ela sabe onde se meteu…. Mas enfim, enfim…enfim…

Era tarde e fechei a baiuca. Nada mais para mais ninguém… nem chamadas telefónicas.
Precisava de pôr a cabeça em lugar seguro, porque sempre há quem a tenha pior do que a minha….

Tive ganas de telefonar ao querido e desabafar. Há certas pessoas que nos procuram e nos deixam mais “doentes” do que elas estão na realidade… Mas não. Fiquei tão abalada com o que ouvi e observei que o mais que posso fazer, é não pensar mais no assunto.
Nem sempre as histórias têm um final feliz…..

11.07.06 – 02H30

sábado, julho 08, 2006

LIVRO EM BRANCO


Comprei um livro em branco,
Para escrever frases de amor,
Mas deixei-o sobre a mesa,
Esperando encontrar um rosto franco,
Com um sorriso e falador,
Para apagar a minha tristeza…


Folheei as folhas tão alvas
Onde decidi nada escrever.
A capa dizia Livro em branco
E as letras dum verde de malvas…
E tinha o livro e nada para dizer…
Porque não encontrei um rosto franco…


Guardei o meu livro e esperei
Numa espera de ansiedade
Deixando o meu livro inútil
E não escrevi, nem escreverei…
Porque só lá deixaria saudade,
Poesia; … tudo o que é fútil…


Podia escrever sobre a maldade,
Ou deixar a minha poesia
De escárnio e maldizer,
Mas isso seria perversidade,
Que mais ninguém entendia
E iam chamar de crueldade…


Porque poeta, é aquele que é cruel,
É o que diz sempre sem dizer
E dizendo, diz o que não sente…
Por isso lhes chamam amargos de fel,
Por isso lhes querem fazer crer
Que só vivem inutilmente…


No meu livro em branco só vou escrever,
Que detesto os ociosos,
Os presunçosos, os sem imaginação,
Porque criticam o meu escrever
E não passam de seres maliciosos,
Incoerentes, indecisos e sem coração…


E para me libertar da saudade,
Vou contigo ler o que não escrevi,
Vou deixar que me abraces forte.
Quero-te no meu livro como verdade,
Como toda a que senti,
Com toda a veracidade,
Antes da minha morte…


08.07.06
11H50
“In Hairdresser”

sexta-feira, julho 07, 2006

ERA PARA TI!

Este arquivo de poesia, que corresponde aos primeiros seis meses de 2006.

Dedico-o com todo o carinho a quem tem convivido mais comigo, nestes últimos tempos. Alguém que me conhecendo bem, teima em escarificar a ferida não cicatrizada da saudade…

Dedico-lhe também estas breves palavras, que não são senão um choro silencioso, por nem sempre ter compreendido que há muita perversidade em muitas das pessoas a quem pretendemos brindar com o nosso relacionamento e nos vão usando como meio de desfeitearem quem não gostam.

O Homem vive de recordações. Faz elos de ligação entre si e outros Homens. Aproxima uns, repudia outros; faz mal a muitos, mesmo que por vezes não tenha a percepção disso. Há os que vivem premeditando a maldade e por gestos, por diversas manifestações de agressividade, vivem tentando machucar o seu semelhante, para progredir e vencer, apenas para lhes ganhar a posição. Como que cada um não fosse um ser individual, no seu espaço, sem qualquer possibilidade de substituir ou ser substituído. Dividem os que os rodeiam com habilidade e impostura. Dividem para reinar.

Há quem procure em excertos de textos de verdadeiros autores, a forma de indirectamente agredir, mostrando o que pretende, ou está pretendendo fazer, apenas com o intuito de martirizar quem os possa ler.

Durante as últimas semanas de Junho, fui agredida verbalmente por diversas vezes, por quem não passa de ninguém, pela simples razão de querer tomar uma posição, que não tenho e que dificilmente terei, mas pelo contrário já a tem e há muito. Lamento! Esse tipo de pessoas, não merece ter essa designação, nem tão pouco de animal, porque afinal, os animais conseguem ser mais gregários que os Homens!

Quando era adolescente, li um livro muito interessante que se chamava “A Importância de se Chamar Ernesto”. Cabe muito bem a certas pessoas essa vestimenta…

Mas chega de batalhar sobre quem não merece sequer uma linha, porque até parece que estou a dar importância a um assunto que, só por si, não merece uma única palavra.

O que escrevi ao longo destes dois anos, quer prosa, quer poesia, foi-te dedicado, como disse, com todo o carinho que achei que merecias… até ao dia em que passaste a ter um “tu” de afinidades, apenas sociais, ou não, com quem me tem vindo a molestar das formas que são públicas – sabe-las bem, mas gostas dessa partilha, só porque reges o teu espaço narcisicamente, sem pensares nos que te rodeiam e que te têm sido dedicados!

Estou de acordo! Só não pactuo com banalidades.

sábado, julho 01, 2006

E VAI DAÍ


Quando me “licenciei”
E para isso estudei… estudei…
Fiquei cheia de vaidade.
Porque doutora, é verdade,
Tem saída em qualquer lado,
Até para arranjar um namorado…
Mas com tanta euforia,
Nunca passei da agonia,
Do simples faz de conta…
Embora seja uma afronta….

Umas farras, uns bailaricos,
Uns cigarros e uns copitos,
Então não é bem melhor?…

E doutora, “licenciada”,
Cresci sem fazer nada,
Porque era importante casar…
Fingir e poder armar
Em dama conhecedora,
Muito chique, muito doutora…
Dizendo sempre saber
Disto e daquilo, sem ser,
Realmente conhecedora,
Mas sempre com ares de doutora…

Umas frases empolgadas,
Umas vestes engomadas…
Mas com copitos, é melhor…

E de anos em anos a passar
Como doutora, sempre a reinar,
Sempre julgando ser a melhor,
Acabando no pior…
De manhã à noite enfrascada…
Dizendo que só bebia limonada…
Ficou-se pela bebedeira,
Rezando à padroeira,
Para mostrar e omitir,
O que já não podia fingir…

Sempre com falinha mansa
Com uns copitos na pança,
Hei-de levar a melhor…

Em constante insinuação,
Acho-me com frustração
E comecei a tratar-me…
E a tentar libertar-me
Duma grande enfermidade:
Stress e ansiedade…
E quando o sono não vinha,
Lá ia mais uma bebidazinha…
Até começar sério tratamento,
Com muita dor e sofrimento…

Cheia de medicamentos,
Ensonada em todos os momentos,
Tinha de ir em frente…

Passei então a navegar.
Cibernauta veio a calhar
E arranjei forma segura
De olvidar a secura
E saudade de beber
Que fazia, para esquecer…
Mas, há sempre um mas afinal…
Encontrei alguém igual
E comecei a conversar
Que só para mim eu quis guardar…

Sabia de informática,
Calculo e matemática.
Era a pessoa ideal!

E lancei a confusão
Por estar presa a uma paixão
Que já não era a bebida
Mas que vai deixar ferida
Uma idiota qualquer,
Que pensa que por ser mulher
Vai levar a melhor, ganhando,
A quem estou amando,
E vou arruinar-lhe a paciência
De mansinho, sem violência…

Desta maneira, dividir para reinar,
Aqui estou por lhe ganhar
Porque é burra, loira e sentimental…


histórias de entre nós
01.07.06
isabel

sexta-feira, junho 16, 2006

REFLEXÃO SOBRE O REBATER DE QUESTÕES

Cheguei ao varandim e vi uma multidão aglomerada lá em baixo. Detive o olhar e vi um milhão com a mesma expressão. Um olhar vago e perdido. Outro milhão deixava transparecer uma tristeza sem limites e ainda outro mostrava uma expressão de expectativa… afinal eu não estava só entre aquela multidão…

Saí da varanda e sentei-me em frente ao espelho e tentei falar com aquele ser que se sentava à minha frente e perguntei-lhe porquê tudo isto? Porquê temos de procurar sem ver e ver sem observar. Porquê não aparece frente a frente de cada um de nós o outro ser certo, correspondente à outra metade. Porquê vagueiam os nossos olhos entre multidões e não conseguimos nada mais do que ver quem não nos vê?

O tempo que passamos a olhar é uma medida incomensurável. É uma eternidade… e nada vemos… apenas olhamos e nada se detém na nossa visão…apenas na nossa recordação… e longínqua como a eternidade que nos separa da realidade.

Todos já passámos por o alguém que nos poderia deter, mas não reparámos e esse alguém passou, quase despercebidamente…para depois ficar apenas na lembrança… nada de nós deixou uma marca que fizesse deter esse alguém, que o fizesse estremecer, que o fizesse sentir o eco do nosso pensamento… mas é assim… há que não parar e por isso me levantei, arrumei a cadeira e voltei ao varandim… mas não havia mais ninguém na praça. Dispersaram-se, perderam-se nas ruas e vielas e eu vou continuar a ouvir a passarada que numa algazarra infernal disputando os seus ninhos, no arvoredo do parque…

A tarde vai descaindo, cinzenta e chuvosa e para que não morra de tédio, vou escrever umas linhas ao som da chuva que resvala pelo mármore da varanda. Vou recordar, como todos os que estiveram na praça, aquele amor que por mim passou e eu não vi, por ter os olhos na direcção errada…

16.06.06

HISTORIAS QUE A VIDA NOS ENSINA



Uma simples pergunta que deu origem a um elo nas relações entre seres humanos. É verdade!

Agora sei que ela se chama Quelinha e ele, apenas Amor…

Os horários dos comboios sofreram alterações em consequência de ser feriado. Quelinha pediu-me para lhe explicar porquê não havia o comboio do costume. Acrescentou que estava ainda em convalescença de uma grave depressão e por essa razão se confundia e entrava em stress tão facilmente.

Percebi desde logo que tinha uma sede imensa de se abrir e falar. Precisava de alguém que aceitasse o que fazia e de como o fazia e o que a levava a fazê-lo.

Choramingou. Não deixei. Dei-lhe toda a força. Toda a que não sinto em mim, mas que de não sei bem donde, consegui fazê-la sorrir, quando a minha alma chora torrentes de lágrimas, que apenas se perdem no meu peito, porque não existem ombros solidários.

Tentei dar segurança e criar autoconfiança em Quelinha, que receava não ser capaz de acertar na estação onde haveria de sair.

Tocou o telefone dentro da mala dela e respondeu com um “Amor”, que estava acompanhada e apoiada. E assim foi, até a ter entregue nos braços do seu “Amor”.

Quelinha contou-me ser casada, mas que desde os trinta e dois anos, o marido, que sofrera um acidente vascular grave, derivado a um tumor cerebral e desde essa altura, apenas era um bebé. Passam entretanto trinta e três anos…

Depois contou que tipo de medicamentos toma diariamente, quem são os seus médicos e como conheceu a pessoa com quem se ia encontrar.

E o comboio chegou à estação para onde íamos. Descemos e de novo o telefone tocou. Disse-lhe onde estava e que eu a acompanhava. Ele chegou. Um homem já meio idoso, aliás, como Quelinha e muito bem parecido e tão gentil…

Formavam um par perfeito e lá seguiram, enquanto eu me afastava para seguir para onde ia.

O resto do dia decorreu sem incidentes e nunca deixei de pensar naquela mulher e naquele homem, que sem deixarem de respeitar os seus compromissos, partilhavam um carinho belo e ternurento, que lhes vai dando força para continuarem vivos e com coragem para enfrentarem os revezes das suas vidas.

Esta lição de vida permitiu-me ver com certa lucidez o que me preocupa muitas vezes, porque o preconceito de certas teorias acaba por atrofiar o que mais belo temos dentro de nós – o Amor!...

13.06.06

sábado, maio 27, 2006

(RE)LEITURAS

Leio e releio tudo o vou escrevendo, num constante recordar das etapas que vou tentando ultrapassar, no dia a dia que atravessa a minha existência…

Louvo os que pela lei da morte se vão libertando das agruras que a vida deixa, em sulcos profundos de dor, na imaterialidade de cada um de nós…

Louvo os que nem por um momento, deixaram tempo para um adeus! Corajosos!

Um desapossamento de sentires e vontades, deixa em quem parte, um vento de liberdade, uma partida sem rumo, como o pólen que esvoaça pelos campos e caminhos, no fim da tarde brumosa….

E para além dos escritos que repovoam as minhas mesas e os arquivos que guardo no computador, nada, mas mesmo nada existe… apenas vai restando uma vontade de não voltar a escrever, não voltar a pensar, não voltar a sonhar… Ninguém existe! Ninguém é nada! Então, que fazemos neste deserto, onde nem os lacraus resistem…

27.05.06

terça-feira, maio 16, 2006

RODOPIO DE PENSAMENTOS

A água corre com um jacto forte e intermitente, não muito quente e acaricia-me o corpo numa massagem revitalizadora e reconfortante, enquanto o pensamento vai deixando desenrolar uma corrente imensa de factos e imagens que me entorpeçam as vontades e exaltam o desejo do que jamais aceitaria.

Passo em filme continuado todas as imagens que guardo religiosamente na memória, bem como todas as páginas que me foste passando, com tudo o que foste escrevendo e que querias que eu lesse. Tudo, sem omitir uma única virgula vai escorrendo, tal como escorre a água pelo meu corpo, neste duche matinal…

Nomes! Nomes e mais nomes de muitos e muitas (aventuras fáceis), de gestos aparentemente ingénuos e desprovidos do que quer que fosse, que me fariam pressupor que a simpatia e afabilidade eram o único e real sentido de tudo isso… mas eu não era mais do que o veículo para anestesiar as mentes de todos os incautos, que te fossem lendo, por mera curiosidade…

A paixão por este ou aquele nome (porque foram nomes e não gentes), que te acariciaram, que te beijaram, que compraram o teu sentir e depois se diluíram num mar de recordações amargas que vais esgravatando nos escombros de uma imaginação doentia, repleta de figuras fantasmagóricas, a quem disseste amar e a quem teceste os mais enaltecedores elogios … tempos… e vingativamente, eis que surjo de um beco sombrio (triste e desiludida do mundo onde me movimentava), e pões-me aos pés uma montanha de sonhos… só sonhos!

A amálgama de quereres e não quereres, repovoam o teu sentir deambulante, aparentemente inseguro, para te permitir granjear atenções e paixões que depois aniquilas, como se fossem apenas bocejos depois de um desses fortuitos encontros de devaneio…

Rodei a torneira. Parou o jacto de água. Encerrei o pensamento e um toque de campainha fez-me acordar do que poderia ter sido um sono fora de horas… Um silêncio sepulcral seguiu-se. Enrolei-me no toalhão e fui ver quem batia a uma hora tão pouco convidativa de receber fosse quem fosse… Apenas publicidade! Ainda bem!!!


16.05.06

sexta-feira, abril 28, 2006

FOLHA SOLTA…


Não vou procurar mais palavras para ser agradável. Não vou, gentilmente, voltar a dizer que sim a tudo. Não, não e não, vai ser a expressão usada com mais frequência. Não gosto. Não me apetece. Não quero! Não. Vai ser tudo o que direi sempre que sempre… (Sabem lá as forças ocultas o que isso irá custar…)

Não será perdido mais tempo a saber do que gosto ou do que me fere ou magoa. Perda de tempo! (Há coisas que só a sensibilidade pode deixar que se sinta). Não haverá necessidade de procurar agradar, para ser agradável (ao fim ao cabo, o que é ser agradável, quando nada se significa para quem desejamos ser tão gentis?!). Não será necessário fingir, porque vai deixar de haver necessidade de o fazer. Não haverá necessidade de omitir, (sim, porque quer queiramos, quer não, a omissão é uma mentira mascarada…). Será escusado. Conscientemente, admita-se que não me interessa (não será bem assim, mas sofrerei só para mim) … que não haverá comprometimento com nada… mas a verdade (que quero impor) é só esta, não quero saber de mais nada!

Não tenho disposição. Não estou bem de saúde, não tenho tempo… vai finalmente saber-se o que é ser-se posto no lugar de onde nunca se deveria ter saído: a penumbra…

Não haverá segunda oportunidade. Cada um perde a sua. O mundo é assim! Não posso aceitar, nunca mais, ser a última oportunidade. Não quero nem imaginar, ouvir de novo, que a culpa é minha, se não se verifica a realidade do sentir (quando se sabe muito bem quais são as razões camufladas a agitar a causa próxima).

A falha não é minha! Quem não sabe conquistar, não pode levar o troféu da batalha…

Eu estou cansada de ser o espólio de todas as batalhas…

Não chorarei mais, contorcida, entre os lençóis, por voltar a ser o boneco de palha, que mesmo ateado o fogo não arde… não! Não aceito ser preterida a belo prazer. Não concebo a ideia de ter de pôr em tudo a compreensão, que só a educação pode trazer. A cobrança, a troca, a vingança, a injuria, são inadaptadas às minhas características. Dócil, amorosa, compreensiva, dedicada, mas nunca a coisa que se tira e põe conforme apetece ou não, conforme é ou não útil… se, se joga assim, eu fartei-me de ser o dado que jogado no pano verde, só pode mostrar a face mais valiosa.

Não às leituras transversais. Não ao imaginar que letras e letras, palavras e palavras são para mim, quando eu nem entro em nenhuma delas… Nada de comentar as políticas como politicamente correcto, porque à partida, tudo está errado… isto de ser o pires que apenas tem utilidade para não sujar a toalha… acabou!

Acabou muita coisa! Acabou o permitir usar e esquecer logo de seguida. Acabou o momento seguinte cheio de lágrimas e frustrações. Acabou o dizer que está tudo bem, quando tudo está mal! Acabou tudo! Tudo! Eu acabei neste momento!

23.04.06

sexta-feira, abril 21, 2006

AS ÁRVORES

... mesmo feridas, maltratadas, as árvores morrem de pé...

quarta-feira, abril 05, 2006

MINHA GATA!



Com esse olhar dedicado
cauda erguida e ondulada
e de miar muito mimado,
está a gata apaixonada....

À voz da dona dá um gemido
E pede colo com doçura
Num lamuriar tremido
Mas tão cheio de ternura.......

Dissimulada e às vezes falsa,
Felina independente, é certo
mas terna quando estou perto.


airosa, parece dançar uma valsa
sempre a ronronar tão docemente,
numa fidelidade que não mente....

10.02.005

sexta-feira, março 31, 2006

O DIA 22 DE MARÇO

Por um instante acinzentou-se o que via. Não vi nada. Melhor dizendo, lembrei teu nome e balbuciei-o, mas caí no escuro por longos segundos.

Quando se fez claridade na minha mente e visão, lá estava a enfermeira a distribuir, pelos tubos de ensaio, o sangue vermelho escuro que havia acabado de me sugar…

Sem qualquer alimento, apenas me comecei a lembrar de uma fofa torrada amanteigada… mas cheia de náusea, tinha de continuar em jejum, pois a TAC estava marcada para daí a duas horas…

Saí do laboratório e durante uma hora caminhei. S.O.S.! Estou mal! Rodopiavam os carros avenida acima, avenida abaixo. Os vermelhos dos semáforos pareciam pequenos diabinhos a fazerem fosquinhas. As sirenes das ambulâncias soavam-me a gritos esganiçados, numa acusação persistente, de uma culpa que não tenho: ser eu!

Apressei o passo quando passei por uma avenida onde está instalado um qualquer ministério e um dos dois policias à esquina, estava armado com qualquer coisa parecida a uma arma de guerra… e lembrei-me do sibilar das balas e o baque de um estalido estranho… lembrei-me de tanta coisa! Mulher coragem, hoje feita idiota, colhendo os frutos da árvore que nunca plantou… chorando uma saudade do que nunca aconteceu…

Já na sala de espera do centro de diagnósticos onde faria a TAC, veio o auxilio e logo de seguida ouvi chamarem pelo meu nome e lá fui, depois de assinar uma folha de papel onde não autorizava que me ministrassem um determinado medicamento injectável por causa das minhas alergias. Fizeram-me deitar numa maquineta para além de uma porta onde havia um aviso que dia “Radiações”. Estava feita…

Zum…zum… e depois já esta! Até me assustei (aliás como em mim é normal), quando me soltaram a cabeça, que havia sido amarrada, para não deslizar (ou para eu não fugir…).

Finalmente a tão apetecida torrada! Soube bem, embora comesse para satisfazer o estado de enfraquecimento e não por prazer. Aliás, como por necessidade.

Mais uma bica e aí irei de novo, caminhando até à hora do cumprimento da minha tarefa.

Não me apetece ir dar aulas, mas os meus seniores precisam de mim, forte e sorridente e a fornecer-lhes uma dose de auto-estima, que não tenho para mim…

Espero pelo final da tarde para carregar baterias, para os dias seguintes…

Às vezes nem se consegue ter a percepção de quanto é importante uma palavra terna, para nos ajudar a carregar os fardos que diariamente transportamos de um lado para outro… e há tanta gente com uma importância desmedida em relação a outros, sem que tenha sensibilidade para se aperceber disso…

22.03.06

sábado, março 04, 2006

MEDO

Perante uma situação de ameaça, quer seja real ou não, reage-se assim:

· Cérebro: as estruturas responsáveis por iniciar a reacção a estímulos amedrontadores são as amígdalas cerebrais, localizadas na região das têmporas. Estas enviam um sinal ao hipotálamo, região de controlo do metabolismo, para que seja intensificada a produção de adrenalina, noradrenalina e acetilcolina. Numa fracção de segundo, a descarga dessas substâncias causa alterações no funcionamento de diversas partes do corpo.

· Olhos: a química do medo faz com que as pupilas se dilatem, diminuindo a capacidade da pessoa reparar nos detalhes que a cercam, mas aumentando o poder de visão geral. Em tempos ancestrais, esse recurso permitia que o homem identificasse no escuro das cavernas um predador e as possíveis rotas de fuga.

· Coração e pulmões: o aumento do nível de adrenalina faz elevar os batimentos cardíacos. Uma maior irrigação sanguínea faz com que cérebro e músculos trabalhem mais intensamente, deixando a pessoa alerta e ágil. O facto do coração bater mais aceleradamente, exige maior oxigenação e ­daí, que a respiração se torne mais curta e ofegante.

· Estômago: muitas pessoas, em situações de medo, sentem dor na região estomacal devido ao aumento na produção de acetilcolina. A liberação em maior quantidade de sucos gástricos, faz acelerar a digestão e a transformação dos alimentos em energia.

quinta-feira, março 02, 2006

Nenhum Homem,

Nenhum Homem,
O nosso ele
(inspirado em “Love Poems” de Danielle Steel)


Ele era um homem
O homem
Que era (?)
O meu homem?
Todos sabiam
Que aquele homem…
O homem era meu (?)
Era o dele…
O homem
Que era
O seu homem
Que era meu (?)
E soube
Que ele pensou
o mesmo também…
Loucura
pensar que o homem
era nosso.
Nenhum homem
O nosso homem
O nosso homem
O seu homem
O meu homem…
E eu apenas desejo
Agora e depois
Saber quem é
a mulher (?) dele …


27.08.05

sábado, fevereiro 25, 2006

Repercussões Psíquicas Possíveis


“………
Todas as crianças que andam na Escola têm direito a serem alegres, terem amigos e a brincarem com os outros. Têm o direito a ter uma Professora que não grite com elas.
Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher um chocolate que lhes apeteça.
Todas as crianças têm direito a terem orgulho na sua existência.Todas as têm direito a pensar e a sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns 20 anos.
Pedro Strecht - CRESCER VAZIO - Repercussões Psíquicas do Abandono, Negligência e Maus Tratos em Crianças e Adolescentes “
… … … … … … … … … … … … … …

Passa que não passa os olhos por aqui e por ali e eis que dou com um excerto de um dos livros de Pedro Strecht - CRESCER VAZIO - Repercussões Psíquicas do Abandono, Negligência e Maus Tratos em Crianças e Adolescentes - e vai daí, veio-me à memória uma cena a que assisti há uns tempinhos e que me deixou abaixo de esterco….

Uma mamã muito “tia”, exercia uma agressividade, sobretudo no olhar e no tom com que pronunciava as palavras que proferia, que cortavam o coração a qualquer pedra, se as pedras tivessem coração…

Todo o aparato daquela violência era derivado à criança não ter tido uma nota mais elevada (embora com positiva), numa disciplina qualquer e para a qual, ela mamã, havia perdido um tempo infindo a tentar explicar…e vai daí, só referia o que dava à menina, que qual flor açoitada por forte ventania, se vergava ao peso das lágrimas vindas de uns olhitos já massacrados de tantas anteriores lágrimas…

Falei com a menina. Acalmei-a. Prometeu-me estar atenta a próximas sessões de estudo mas doeu-me quando me beijou, segredar que a mãe não gostava dela. Ainda tenho a dor, uma dor profunda, porque é injusto que se seja assim para uma criança… quando se tem tantas prosápias e se mostra “gente grande”…
24.02.06

domingo, fevereiro 19, 2006

RENDAS

A moda redescobre no século XIX o encanto da renda que passa a ser, mais do que nunca, um símbolo de uma elevada classe social, depois do declínio ligado a transtornos políticos e sociais dos finais do século XVIII.
(detalhe do retrato de Giuseppina Negori Pratti Morosini, realizado por Francesco Hayez em 1853)

RECORDANDO-O


Chamei impaciente a madrugada
e só o silêncio me respondeu.
Gritei mais alto, desesperada,
mas o meu grito se perdeu.


Perdida, chorei angustiada,
mas nem o choro me valeu.
Depois, já não havia nada:
Só a cinza do que ardeu...


Foi-se o sonho, minha ilusão,
Suspiros de ternura e emoção.
E aqueles encontros de fugida.



O frio da cinza é frustrante.
E saudosa é a época distante
Que fica na memória perdida,
19.02.06