terça-feira, janeiro 30, 2007

EIS NOS MULHERES


Eis aqui as escravas do senhor!
Faça-se a sua vontade!
Que tudo seja por seu amor…
Crescei e multiplicai-vos na dor…
É esta a nossa realidade.


Eis nos senhor! A vossa escrava,
Objecto para procriar.
Eis nos como o silencio que cala,
A verdade mortífera como bala,
Que nos mutila o amor e faz odiar…


Eis aqui mulher sem pensamento,
Lábios, seios, sexo e obediência…
Eis nos aqui e além em movimento,
Dóceis-rebeldes a cada momento,
Porque nos cortaram o sentimento!

28.01.07
10H40

sábado, janeiro 20, 2007

MENSAGEM DE PAZ

(também no Clube de Pensadores)

Às vezes queremos escrever e parece que as mãos recusam acompanhar o pensamento e quase que paralisadas, não deixam que as letras corram à velocidade com que corre o que nos escoa do nosso interior.

No emaranhado dos meus sentires, estou triste. Tão triste que me revolta a própria tristeza que me vai na alma.

Sinto que se vai perdendo o sentido da vida. Pensava que as pessoas ainda pensavam um pouco, antes de falarem… se pensam apenas é para se magoarem entre si.

Ouvi umas afirmações, esta manhã na rádio, de alguém por quem até nutria uma certa consideração e que me deixaram siderada. Dizia a personalidade em questão, que o “sim”, referindo-se à despenalização do aborto, seria para além de outras considerações, uma forma de impelir a mulher a abortar, para não perder o emprego.

Francamente! Então isso só vem mostrar que há entidades empregadoras a impedir que a mulher viva a beleza da maternidade. Razões de estética? De falta de humanidade? De egoísmo? E com que “lata”, depois, se vem dizer que há uma baixa taxa de natalidade… Como tudo isto é incoerente…

Mas afinal que “bicho” somos nós mulheres, para que, como joguetes, engravidemos ou não, conforme a vontade de quem nos acompanha? Porquê se vai considerar crime, quando apenas se quer reparar um erro, que mais tarde pode ser irreparável? Não será muito mais criminoso permitir o avanço de uma gravidez indesejável? Não será muito mais criminoso recorrer-se a mãos oportunistas e daí advir a impossibilidade de uma futura gravidez desejável? Não será muito mais criminoso morrer-se, por não ter havido respeito por uma situação, que teria sido aceitável se tivesse sido compreendida? Que e quem, poderá levar alguém a julgar outro, se desconhece a razão que levou a outras razões?

Pensem! Por favor pensem! Aqui não se trata de matar ninguém. Trata-se de dar dignidade a quem por razões, que só o próprio conhece, de manter uma qualidade de vida, sendo assistido condignamente, por quem de direito, perante uma situação, por vezes bem difícil.

Pensem por favor, que devemos viver com Amor, para que possamos dar e receber felicidade. Amar é compreender e dar força a quem possa estar a passar um transe difícil na sua vida.

Estas palavras, que acabei por conseguir passar, são também para ti, a quem amo desesperadamente: Vida!

20.01.07
isabel

sexta-feira, janeiro 19, 2007

SEPULCRO DE PALAVRAS


Hoje pensei em ti!
Pensei muito e de diversas formas.
Pensei como as pessoas surgem nas nossas vidas, como se tornam donas de todos os nossos pensamentos e em todos os mecanismos que usam, para nos enredar, de uma forma subtil.
Pensei em tempos passados e reflecti sobre muitos dos diálogos que foram mantidos, durante muitos dos momentos que passámos juntos e que juntos vagueávamos por aqui e por ali, numa alegria desmedida, por vezes descontrolada.

Poder-te-ia ter dito frontalmente, quando te vi naquela tarde, mas prefiro manter silêncio, como que forçado. Prefiro guardar as minhas palavras, que se vão atropelando entre desconexos turbilhões de pensamentos, de revolta, de ira, de ódio, de desprezo.

Prefiro silenciar o som dos sucessivos gritos que interiormente vou soltando, como urros de animal ferido. Prefiro que me julgues depositada no além da existência e assim possas, de corpo e alma, dedicar-te às delícias que preenchem o teu mundo. É pena não perceber que apenas és o que és e não o que queria que fosses para mim.

O meu silêncio não vai permitir que oiças como ecoa, dentro de mim, toda a raiva que em mim fervilha, quando balbucio que não vais fazer de mim palhaça o tempo inteiro. O meu silêncio é e será a potente arma de autodefesa. Não cedo!

Quando nada se tem, é maravilhoso encontrarmos quem nos entenda, quem nos apoie, quem aprecie as nossas pequenas virtudes… (mas com verdade). Vamos juntando pequenos pedaços de felicidade e torna-se fácil viver, mesmo quando, antes, já tivéssemos preparado a nossa fuga para um destino desconhecido. Projectam-se sonhos, vivem-se ilusões e cometem-se todas as loucuras que a imaginação permite, porque sonhar e pensar, ainda nos é permitido.

Porém, um dia chegamos à conclusão que nos estávamos a iludir gratuitamente e acordamos, não de um sonho, mas de um pesadelo…
Concluímos que o amor que andávamos a construir apenas era nosso e que nos era cobrado o facto de o sentirmos.

Amor é uma amizade muito forte, que se vai construindo, dando força, apoiando e mimando a quem dedicamos o nosso todo. Mas quem merece que se lhe dê o que de melhor temos, se não nos entende?

Há anos de luz a separar-nos… É certo que a luz chega rápido ao seu destino… mas eu distanciei-me e perdida no deserto do meu viver, encontrei-te, como a mais preciosa miragem… mas apenas foi miragem…


19.01.07

segunda-feira, janeiro 15, 2007

QUADRAS A UM AMOR REVOLTADO


Fechem-se as escolas,
Mutile-se o conhecimento
Passe-se a viver de esmolas;
Aniquile-se o pensamento

Aumente-se a burocracia
Dificulte-se o esclarecimento;
Viva-se em total fantasia:
O “faz de conta” do contentamento…

Fechem-se maternidades e hospitais
Deixe-se crescer a criminalidade,
Afinal só somos simples mortais,
Dignos de toda a crueldade…

Atrofie-se a criatividade,
Valorize-se o douto copiador,
Que pelos cafés, cheio de vaidade,
Põe o chapéu, dando ares de orador…

Elimine-se o amor!
Explore-se quem ainda o sente;
Encham-lhe a alma de dor,
Porque a dor é um bem premente…

Deixai todas as criancinhas viver!
Deixai que vagueiem no desconhecido;
Vieram ao mundo para sofrer,
Porque é tudo o que lhes é devido…

Pague-se bem para ter saúde,
Pague-se toda a medicação.
Aplauda-se a fraude
E vá-se vivendo em ilusão…

Não leiam! Não evoluam!
Vejam na TV as novelas;
Descansem e destruam,
Porque o resto, são balelas…

15.01.07

sábado, janeiro 13, 2007

DESAPONTAMENTO


Caos! O caos sou eu. Eu! Na tumultuosa corrente de gentes que deslizam a passo rápido pela rua fora, vou e misturo-me. Ando e perco-me. Perco-me nos pensamentos que não se traduzem por palavras. Os sentimentos não têm tradução…

As janelas da alma, protegidas pelas vidraças que lhes permite ver melhor, estão baças pelas lágrimas que dançam, antes de tropeçarem nas pestanas e rolarem de mansinho, pela face, que fria pelo vento do fim da tarde, parece mumificada sobre um corpo automatizado e desajeitado pala força do soluçar interior…

Vagueei sem destino. Sou um caos! Horas e horas, por ruas e ruas mas sempre a sua voz confidenciando adorar alguém. Mas, esse alguém, não fui eu, não sou, nem serei…

Dei força. Sofri. Foi lenta a morte do sonho e moribunda, qual ave ferida, vagueio sem destino… vou vaguear em desespero, até que o último dia acabe…

Entre o céu azul acinzentado do fim da tarde de Inverno e a calçada gaste de tantos transeuntes, caminho eu, só, destruída, um verdadeiro caos.

Amar é o caos!


12.01.07

segunda-feira, janeiro 08, 2007

2007 E OS PRIMEIROS PENSAMENTOS

(e aqui se constrói o pensamento...)

(inspiração no Clube dos Pensadores)

Quando fechámos a porta ao ano velho, decidimos que muitos dos assuntos que acaloraram as nossas conversas, ficariam pela parte de fora e que tudo o que entrava junto ao novo ano, seria também novo. Mas não é bem assim. Há muitos temas que terão de continuar a fazer parte do nosso quotidiano.

A falta de rigor e controlo das contas públicas que parece ter existido no orçamento de 2005, vai repercutir-se no futuro e pôr-nos a pensar se não haverá novas faltas de rigor (neste e em outros assuntos). A saúde continua a andar muito badalada, mas com poucas soluções. O aborto continua a dividir opiniões e a serem equacionados pontos de vista que não solucionam a questão. O ensino/aprendizagem continua a ser tema em aberto; e por aí fora, tantos outros temas entraram com o novo ano: transitaram…

Gostaria que este 2007 fosse, para cada um de nós, um ano em que se fizesse uso do pensamento, por forma a que se eliminassem as arestas da ignorância, as reentrâncias do “faz de conta” e que com plena consciência, se contribuísse para uma considerável melhoria no conceito de cidadania. Gostaria que se pusesse mais amor em cada causa que se defende, para que melhor se lutasse por ela. Gostaria que cada um de nós fosse melhor na execução das suas tarefas, que não cruzasse os braços ante dificuldades, mas que colaborasse na sua eliminação. Gostaria que ao bater da meia-noite de trinta e um de Dezembro deste novo anos, nos sentíssemos mais felizes por termos conseguido eliminar, ou ajudado a eliminar aspectos errados, que antes apenas havíamos sabido criticar.

Gostaria de não voltar a ouvir um ministro dizer que falhas administrativas, levaram a que centenas de médicos não fossem colocadas. Que muitos professores, andassem de mala às costas, porque as tais falhas os leva a serem colocados fora do seu meio, que muitas fábricas fecham por não cumprimento de anteriores acordos; gostaria que se eliminassem, de uma vez por todas, os “apitos dourados”, “apitos prateados” e outros de outros metais, para não continuar a corrupção, que desde os bancos da escola se faz presente, com a constante cabulice e o truque da nota alta e os conhecimentos em “baixa”. Gostaria que as pessoas gostassem umas das outras, sem pensarem nos que têm posses e que as podem explorar; gostaria que não se finja que se sabe, usando o saber de quem realmente sabe… gostaria que não se usassem as influências para se conseguir alguma coisa… enfim, que o nosso mundo fosse muito melhor…

Gostaria que houvesse trabalho para toda a gente que vive da troca dos seus serviços, por uma remuneração justa e que permita viver com dignidade.

Gostaria enfim, que cada um fosse realmente suficientemente importante, sem vaidade, sendo apenas o que é.

08.01.07

sexta-feira, dezembro 29, 2006

ESTE SENTIR EM PALAVRAS


Procurei incessantemente palavras para expressar o que queria dizer. Não encontrei. Não devem existir. Não há palavras para expressar o meu sentir.

Procurei nos olhares, o meu olhar cheio de nada, para te ver, e não consegui… Não passas do nada para onde olho e não tenho palavras para dizer o que calei. Não por não o saber dizer na altura própria. Talvez por vergonha, talvez por ser demasiado tímida, como consequência dos tabus que a educação impunha por aquela época. Talvez por medo de não acreditares.

Agora, no vazio da agonia em que a minha alma vive, olho sem ver e quero dizer o que o pensamento não articula. Toco as tuas cinzas frias e sinto que deixas um estranho calor passar às minhas mãos. Será que agora só tu entendes o que quero transmitir e jamais o dissera antes?

Muitas vezes a dureza das tuas palavras chocaram-me. Muitas vezes deixaste que, com a cabeça no teu colo, chorasse, mas nunca me deste oportunidade para te dizer quanto te amava. Agora percebes este dilema… como ter coragem de o dizer?

Mesmo não encontrando as palavras que procuro, mesmo não te tendo para te olhar, mãe, dá-me a força que preciso para dizer o que sinto. Para dizer que há dentro de mim um rio turbulento saltitando de rocha em rocha e que em cada momento se despenha como uma cascata… Apenas assim são meus sentimentos, que emudecem e calo o que sinto…

E o que sinto, sem as palavras que necessito para o expressar, fica sem sentido e vai morrer dentro do meu peito. Uma frustração sem limites amarrota-me a alma, que num arfar agonizante, se vai esvaindo num estertor exânime…

29.12.06

quarta-feira, dezembro 27, 2006

AQUI ESTOU DE NOVO


O sol vai subindo no horizonte. O rio desce rumo à foz. Está calmo, com alguns tufos de lírios acompanhando a descida da maré.

Sentada no comboio, de costas para o caminho, como sempre, vou admirando a paisagem que fica. Paisagem que tão bem conheço.

Para lá da estação de partida, fica tudo igual. Ou melhor, tudo menos um pouco. Fica o sol a estender o seu colorido pelo monte, ficam as minhas coisas, os meus escritos, tu e as tuas conversas com mel, a sala do café do bairro, onde vais mostrar as tuas habilidades às damas alvoraçadas com esse sorriso de falsa promessa… ficam meus ilusórios sonhos e os desesperos de solidão. Não vou ver nada mais.

No horizonte, o sol continua a subir e o avião, inclinando o seu eixo, sobe vertiginosamente, rompendo a gravidade e deixando que o ar frio o acaricie, como mãos de doces amados se acariciam, ao reencontrarem-se.

Parti! Parti rumo ao desconhecido, na ânsia de enriquecer o conhecimento. Parti para esquecer. Voltei a partir para não repetir a loucura de esperar. Enquanto esperei, ias acariciando essas paixões fortuitas e enchendo os olhos e os ouvidos das muitas mel que vão preenchendo o teu mundo irreal, mas real para quem vais deixando, como vão descendo o rio, os tufos de lírios…

Não vou repetir as doses do ópio que tens sido, porque já não me dás vontade de viver…

22.12.06

domingo, dezembro 17, 2006

“EMBORA SENDO, NÃO É…”


Estamos a uma semana do Natal. Apenas uns escassos dias nos separam do Dia que a cultura que bebemos, nos disse que era um dia de Paz e Amor.

Contudo, a tradição cultural que durante décadas nos fez crer que essa era uma verdade inabalável, tem sido esvaída no tempo que passa. Uma verdade que não é tanto assim, uma vez que, cada vez se vai verificando que a tal data, que era muito respeitada, vai deixando de o ser, pelas mais diversas razões.

Por essas razões culturais, atendendo a que a História é a compilação de factos, no decorrer dos tempos, acredito que muitos dos factos se tenham verificado, acrescidos da força emocional dos historiadores do desde sempre. Mas, Historiadores contam a História que muitos Homens vão fazendo, e nesses, nem sempre podemos acreditar.

A ganância, o poder, o querer sempre mais, leva os homens a não medirem a sua própria dimensão e por isso a destruírem outros homens, para comandar outros tantos. Desde que a História é História, sempre assim foi… Heródes, Carlos Magno, Napoleão, Hitler…e tantos entre a Antiguidade e o ontem à noite, fizeram o mesmo de maneiras diferentes… até uma “ex-senhora de” o está fazendo e nem por isso, verdade ou não, respeitou a tal Data, que por razões culturais, seria de Amor e Paz.

Gostava de poder acreditar no Pai Natal. Gostava mesmo! Mas tenho de reconhecer que essa figura com certa tradição, poderia ser chamada de “Pai das compras”, pois está mais ligada a uma época de consumismo do que de Amor e Paz…

Gostava de poder acreditar que pedia ao Pai Natal e que ele me ouvia, para que não existissem tantos pobres (não só no âmbito material), que não existissem tantos doentes (quer de simples enfermidades, quer terminais), que deixasse de haver gente egoísta, ignorantes, oportunistas, rancorosos, incrédulos… enfim, que no mundo onde vivo, todos pudessem ser mais felizes…

Gostava de acreditar que “Um Pai Natal” fosse isso mesmo, um real pai do respeito, da consideração, do Amor de uns para com os outros, durante os trinta dias de cada mês e em todas as partes do Globo…

Gostava que “um Pai Natal” me segredasse que Amar é o melhor presente que poderemos dar e receber durante o tempo em que vivemos. Gostava…

16.12.06

sexta-feira, dezembro 08, 2006

A PALAVRA CERTA


Acabei de encontrar no arquivo do meu pensamento a palavra que me leva à solução de todo um amontoado de muitos pensamentos, que ultimamente me deixam atordoada e apreensiva… desde há quase um ano, que diversas situações, mensagens, bloqueios, missivas, chamadas de números privados, me apoquentam e todas sempre, com o intuito de tentar destruir a minha auto-estima ou de me fazerem crer que estou a mais. Algumas com palavras insultuosas, mas sempre com voz disfarçada, quando se atrevem a emitir sons.

Pois na verdade, há alguém que funciona como usurpador de identidade, fazendo-se passar por quem não é, criando imagens fantasmagóricas do que nunca foi e encarnando o real papel de “sonsa”, como num qualquer filme de Alfred Hitchcock .

E neste momento descodifiquei o enigma. As palavras foram as mesmas, a consideração dispensada foi similar e a qualificação dada, foi exactamente a mesma… aí está! Utilização do mesmo sistema para todos os interlocutores: Manobrar a opinião, manipulando emoções, avivando sensibilidades e desgastando relacionamentos, eis como funciona a tal incógnita com valor x, que me propus a achar nesta equação vida.

Vida, espaço de tempo pelo qual avançamos, sem que nos apercebamos, muitas vezes, que é infinitamente pequeno para que possamos ser felizes. E a felicidade passa muitas vezes ao lado e nem uma saudação lhe dirigimos… Tentamos fazer felizes, aqueles que por circunstancias diversas, continuam com a sua equação com o valor de x, ainda como incógnita.

Mas a palavra apenas é palavra. Mas a palavra destrói o ser humano, porque de todos os seres vivos, quer queiramos, quer não, o humano é o maior predador do seu semelhante. E com palavras destruíste-me e por usares palavras derrubaste o meu sentir e mataste o meu amor… A palavra é perversa, cúmplice, destruidora: criminosa, quando dita numa agressividade brutal; e esse foi o valor x que achei na decifração de equação – um ser problemático, tentando dividir para reinar… mas nestas contas, há que certificar o resultado com uma calculadora; afinal, nestas operações, ninguém é culpado por estar a ser usado para destruir outros…

Entre as muitas palavras que são usadas no dia a dia, há uma que é raramente ouvida e quando dita, a maior parte das vezes é em vão: Amor! Será que o ser humano está tão destituído desse sentimento? Será que para se ser reinante se desgasta e destrói o Amor que existe nos outros? Será que não se consegue aceitar e respeitar esse Amor que uns têm e outros nem o conseguem entender? Será que não se pode receber o tal Amor, sem permitir que venham terceiros destruí-lo? Será que entre seres humanos só o que é podre e inválido é que é digno de condescendência e carinho? Muitos valores de x para achar, em tantas equações que se apresentam a cada momento de um tempo sem limites, que de passagem vamos suportando e quando apenas somos invólucros de um pensamento fugitivo deixam-nos a gravitar num caos de autodestruição…

07.12.06

sábado, dezembro 02, 2006

CHAMAVA-TE TANGO!


Escureceu. A noite veio pé ante pé, coberta de cortinados escuros a esconder a luz cintilante das estrelas. Começou a chover e a noite foi avançando cautelosa e circunspecta. Ficámos sós; tão perto e tão longe. Mas ficámos sós. O escuro da noite sombria e chuvosa e nós.

Deixaste a música entre a noite e eu e tu e a noite. Mas foi tocando e arrebatou-te da usual passividade, permitindo que a tua silhueta sobressaísse do escuro da noite escura.

E o som deu movimento ao estático escuro e num gesto quase arrebatador dançámos o tango que ia escorregando pelo escuro da noite, que prudentemente se esvaía para a madrugada…

E chamei-te tango: Impulsivo, arrebatador, terno e agressivo, prudente e atrevido, penetraste pela noite bem escura e ao som do tango rolámos, deslizamos e não parámos de dançar… mas lá fora chovia e continuava tão escuro…

Durante horas o Tango da Rosa foi meu. Ora violento, ora suave como pétalas de rosa, duma rosa cuja cor nunca consegui ver, porque a noite continuava escura, tão escura que no escuro se ia perdendo como todo o movimento da dança, mas a dança era minha e o tango era meu.

A chuva teimava, ininterruptamente, a querer ser o acompanhamento da música que ora arrebatadora, ora suave, me fazia baloiçar ao seu ritmo: lento, rápido, mais rápido, até à exaustão… por isso te chamei Tango!



02.12.06

quarta-feira, novembro 29, 2006

A ESPERANÇA



Pela vidraça salpicada pela chuva, que não parara de cair, a esperança foi observando o movimento dos que passavam.

A esperança sempre teve a sua janela como um muro que a separa das realidades que se passeiam pela parte de fora da mesma.

A esperança, uma velha imagem na vida, nem magra nem gorda, de olhar vago e sonhador, mas sempre com a ténue cor da tristeza.

A esperança não tem artifícios. Não pinta os olhos nem os lábios. A esperança, com uns cabelos curtos e meio encaracolados, não deixa transparecer que fora uma louraça cheia do que se foi esmorecendo ao longo da vida, enche-os de espuma cinzenta, para que nem ela própria se reveja…

A esperança, que sempre vivera na vida, foi deixando-a passar, arrastando o passo, nos seus sapatos rasos, num passo mais lento, para ir sonhando enquanto caminhava… a distância foi-se dilatando; agora a esperança não mais vai apanhar a vida.

A esperança também fez projectos, deambulou pelos sonhos, deu-se à fé e perdeu-a. Chorou de alegria, gemeu de prazer, sussurrou palavras belas e outras não tanto. E muitas vezes cerrou os olhos rasos de lágrimas, por não se encontrar…

A esperança olhou muitas vezes o espelho e pensava sempre com aquela parte de si mesma que, floresceria em cada mente, como um belo roseiral espalhando um aroma primaveril e prometedor. Incoerente ideia falaciosa… A esperança nunca foi mais do que a faceta alienada da vida de cada vida…

A esperança vestiu a vida com as suas vestes negras e sem acautelar a distância, conduziu-se até ao Jardim das Despedidas. Pela última vez, a esperança diria adeus à sua própria esperança…

A esperança partira da vida, sem que ela se tivesse apercebido antes. Tardiamente, descobrira que mais só do que sempre soubera haver estado, a esperança apenas soube carregar no acelerador da existência e ir ao encontro do sem tempo, no Jardim das Despedidas. A vida sem a esperança, jamais terá razão de permanecer. Apenas será punição…

E nas suas vestes negras, esguia como uma sombra ao entardecer, a esperança deixou-se prostrada na lápide do sonho…

28.11.06

segunda-feira, novembro 27, 2006

A VIDA!


A vida passou. De passos miúdos e lentos para não escorregar, empoleirada que ia nos seus sapatos de tacão muito alto e fino como uma farpa. A vida descia a calçada, nas suas apertadas calças, deixando sobressair um enorme “posterior” cinzelado, pela espessa camada de celulite. A vida tentava bambolear-se. Tentava que as ancas, imperceptíveis, rolassem; mas o que se evidenciava era uma camada imensa de gordura na zona que deveria ter sido a cintura… e o estômago saliente e a barriga não menos, mais parecia uma gravidez quase em final de tempo.

A vida pisava o asfalto como se pisasse um delicado tapete, como se pisasse o palco na mais requintada passagem de modelos… e as mãos, numa posição snobe, gesticulavam em simultâneo que o corpo, para fazer notar as pulseiras que reluziam no braço e os anéis (uns quantos), nos dedos.

A rua estreita e íngreme ficou impregnada pelo cheiro a perfume, caríssimo, que a vida usava. A vida parecia querer deixar um rasto de si, ao passar pela ruela, que se tornava mais estreita e mais íngreme com a sua presença.

A vida, exuberantemente, cumprimentava quem se cruzasse com ela. A vida queria dizer a todos que estava ali. A cada cumprimento, parecia segredar: eu sou a vida! Vejam como sou bela, elegante, conhecedora, ágil… A vida exercia o seu fascínio. A vida fazia-se notar pela languidez do seu olhar e pelo constante ajeitar dos cabelos escorridos e pintados de uma cor em voga.

A vida tentava deixar transparecer um elevado grau de cultura, deixava que percebessem que ia a passar alguém muito versado em múltiplos temas e subtemas, que a vida na vida vai aprofundando.

E a vida percorreu o quarteirão, no seu passo inigualável. Atravessou o parque de estacionamento, meteu-se no carro e com um arranque impecável, fez-se ao labirinto da cidade, entre múltiplos cruzamentos até estacionar à sua porta.

A vida entrou finalmente na sua intimidade. Para trás ficara toda uma rua perfumada, feita de calçada escorregadia e todo o ror de gente que deixara cochichando, na esplanada onde elegantemente pedira e tomara um chá de ervas, como era elegante, actualmente.

Descalçou-se, despiu as calças que pareciam uma prensa que a deixava angustiada e finalmente respirou…

Sentou-se ao espelho, no quarto onde a cama a convidava a um relaxamento e olhou-se. Demoradamente olhou-se nos olhos e balbuciou meia dúzia de palavras: “Odeio-te!” “Odeio-te desde sempre! Sou gorda, deselegante, só sei o que os outros sabem e que copio, sem originalidade…” Num suspiro pegou num lenço de papel e limpou o batom, esfregou o rímel dos olhos e voltou a vociferar:
”Quem é esta?” “Que olheiras! Que lábios descoloridos!”… Levantou-se mas não olhou mais para o espelho. Estava consciente que qualquer árvore do parque que atravessara no regresso a casa, era mais esbelta do que ela, mesmo as centenárias…

E a vida atirou-se para a cama, cerrou os olhos e antes de adormecer ainda pensou que, a sua vaidade só servia para amarfanhar os que se atravessavam no seu caminho… e sonhou que ia numa padiola repleta de pétalas de malmequer, dançando a dança do ventre, entre chuva de flores e moedas de ouro…

Mas viva a vida! A vida é esta loucura e cada um de nós é esta demente existência…


27.11.06

sexta-feira, novembro 24, 2006

DIVAGAÇÕES


É muito difícil agradar a Gregos e Troianos! Compreendo a encruzilhada. Contudo, o Homem tem inteligência, para a usar aquando surgem dificuldades. Também há um ingrediente essencial, muitas vezes desprezado, que é a esperteza. Ambas são primordiais para que se possa ultrapassar quaisquer dificuldades de maior.

Mas como em tudo, há a esperteza dita “saloia”, sem que com isso se queira ofender os naturais dessa zona dos arredores lisboetas. Mas a “tal esperteza”, tem sido, no decorrer dos tempos, utilizada para enganar os reais “saloios”, isto já com a conotação de “parvinhos” …

Pois! Então pensavas que não te ia chegar? É isso mesmo! Estou a escrever para ti e todo o ser humano que me vier ler. Chega de me achares de “tansa” e aplicares todos os subterfúgios para me tentar “enrolar”. Eu sei que sabes que eu sei (onde é que já vi isto antes?), mesmo o que não disseste…? Sabes tão bem quanto eu, que as desculpas e a repetição de muitas vezes “estás a perceber”, não são senão uma forma ardilosa de querer mesmo, que não se perceba nada… Publicidade enganosa!!!

Mas os valores não se contestam: aplaudem-se! E sabes que tens muitos valores, muito embora, narcisicamente, os ponhas em evidência constantemente… para me chamares a atenção? Para me entupires as ideias? Talvez apenas para que não me concentre no que não queres que eu pressinta… Mas já senti!!! E não o podes negar. Comprei gato por lebre… mas só queria provar a mim própria que às vezes a publicidade é enganadora… é mais ou menos como as campanhas eleitorais… É tudo da melhor qualidade e depois é que se observa o outro lado da medalha… e é tarde demais para se devolver, para trocar e resta o ir para o lixo… embora já houvesse pago bem caro… Mas atenção! Mais vale deitar para o lixo do que se sofrer mais danos, que até podem ser irreparáveis… já tem morrido muita gente por não acautelar a inoperância do objecto adquirido… Morre-se de desgosto ou comete-se suicídio…

Será que a caçarola eléctrica, o colchão de água, o preservativo, não vão ficar de consciência pesada, por a sua má qualidade ter levado à morte dos seus utilizadores? Possivelmente nem pensaram nisso, como objectos que são, e ainda por cima, manobrados por terceiros em via dos lucros… … mas há seres humanos com este tipo de actuação… Estou a lembrar-me do último chapéu de chuva que comprei… à prova de vento, assegurava-se que não virava, varetas à prova de toda a intempérie… enfim! Uma importação que me custou mais de dois mil euros e fez o mesmo papel que qualquer um outro, adquirido na feira de Cascais… é o mesmo que vai acontecendo com pessoas… aqui, investe-se em sentimentos, emoções, amizade, dedicação, carinho, Amor! E compensatoriamente ficam as frustrações, a depressão, o desgosto: mais um luto, quando não o suicídio…

Mas tudo isto apenas prova que realmente é muito difícil agradar a Gregos e Troianos… é como nas histórias de amor… amam-se duas/dois, não se quer perder nenhum até ao dia que aparece uma terceira personagem e fica-se entre a espada e a parede… (são os encantamentos extemporâneos) e perde-se quem menos se deveria perder… Era a única pessoa que poderia aceitar, respeitar e amar, mesmo com todas as lacunas que sabia existirem… mas como nas publicidades, as pessoas são mesmo assim.

Mas não fico por aqui. Vou entrar na blogosfera e vou ver o que se escreve e o que se comenta… incrível! Há clãs de aduladores que cumprimentam (por favor?) as/os seus ídolos, mesmo que estes apenas escrevam o que outros escreveram… Para quê? Para dizerem que estou aqui, venham cá ver-me, ou para mostrar aos outros que não são comentados, que “não vales nada” ou então, para não terem de justificar porquê deram atenção a quem não se queria que essa atenção fosse dada… Não reclamo comentários e muito menos ciumeiras… porque há quem não comente por “falta” de inspiração… para quem vem a seguir ler, não se molestar… então comentam-se de outros, com frases pomposas, para se mostrar “muito bem” em relação a uns e que se é indiferente em relação a outros… formas curiosas da existência do ser vivo… Compreenda-se lá estas ambiguidades… também se passa o mesmo com o uso do sistema Messenger… para uns “não há pachorra” para outros, há muita conversa… … ...


24.11.06

sábado, novembro 18, 2006

PALAVRAS QUE NÃO QUERIA DIZER


Queria que este dia jamais existisse no calendário. Melhor, que jamais tivesse existido, nem todos os outros que permitiram que este fosse um dia que me traz mágoa e saudade…

Olhei em redor e vi muitas, muitas palavras. São palavras que usas, palavras que tens em “stock” e vais distribuindo por aqui e por ali, permitindo que se recolham todas as que convêm a quem as lê…

Olhei para a minha folha de papel em branco e timidamente deixei que as primeiras palavras dançassem, sempre com o mesmo pensamento – que direito tenho de macular algo tão puro, como esta folha de papel em branco?

As tuas palavras frias, destituídas que qualquer carinho, penetraram como agulhas, como quando se toma uma injecção… foram essas, apenas as que encontrei, aquelas que vou usando para agredir esta folha de papel tão branco…

Voltei a folhear a tua escrita. Procurei incessantemente quaisquer palavras que perturbassem o meu eu e me deixassem em êxtase, num orgasmo alucinado, consequente de ternuras verdadeiras.

Por vezes é tolerante. Escreves palavras mais suaves. Hoje não as encontro… mas ser tolerante, como quem dá uma esmola, para consolo da sua consciência, é o mesmo que agredir quem já está magoado…

Outras vezes empregas palavras de assertividade, como forma de aceitares certos comportamentos… mas só para quem tem o dom de encontrar nas tuas palavras, todas as que têm significados sensualmente enganadoras… e fica esquecido que assertividade é a capacidade de nos expressarmos aberta e honestamente, sem negarmos o direito de outrem…

Hoje, mais do que qualquer outra vez, procurei nas tuas palavras o que não consegui encontrar: o refúgio para a dor de uma saudade revitalizada pelo teu desdém… Cada palavra, apenas foi mais um tijolo no alto muro que vais construindo, deixando uma alongada sombra por onde me vou movendo como se fora um fantasma…

A minha bela folha branca, agora toda preenchida de palavras que te tirei, não é mais do que uma irrealidade. A minha irrealidade nas tuas palavras reais…

17.11.06

domingo, novembro 12, 2006

11.11.06


Um sorriso! Mas o que é o sorriso? Questiono-me muitas vezes sobre o sorriso. Olho em volta e quase não há ninguém com os lábios sorridentes, com os olhos sorridentes… há sim, um painel de olhares distantes, com uma profunda tristeza lá bem no fundo, e os lábios, bem cerrados numa atitude hostil, triste, até desesperada…

Passeio o olhar por quem me rodeia e sinto que toda a tristeza que me invade, não pode ser transparecida e sorrio… Sorrio porque o sorriso que deixo deslizar pelo meu rosto, é um gesto de simpatia, quando não de amizade, pois que há uma carência absoluta de amizade, entre as pessoas.

As primeiras quatro horas de formação passaram e devo acrescentar que o conteúdo foi magnífico. Começámos com o habitual quebra-gelo, apresentando-nos, falando um pouco de nós e falando de perdas que nos marcaram pela vida fora.

Falou a Margarida primeiro, porque estando a sala armada de mesas em U, ela senta-se na ponta direita, o que significa que eu a última, por estar sentada na ponta esquerda…

Chorei. Chorei porque passei em revista todas as perdas da minha vida, algumas tão dolorosas, que seria impossível não me comover ao recordá-las e falar delas… Estamos num ambiente de Psicologia, por isso, há uma interacção muito positiva entre todas nós. Senti-me apoiada e acarinhada… afinal, cada uma de nós fez uma regressão ao passado…

Recordei que, já no próximo dia 17, vai passar mais um aniversário de uma das grandes perdas de toda a minha vida… E falei da ansiedade de afastamento que estou a atravessar, pela distância física, de uma marca definitiva no que resta da minha vida…

Quão estranho sentir o que se esforça querer não sentir… é quase contraditório…

Depois, no intervalo do almoço, fui bebendo uma xícara de chá verde e conversando… às vezes sinto-me a conversar comigo, contigo como interlocutor. É estranho, mas sinto-te como a parcela que me faltava, ou que andava perdida… Finalmente encarei, frente a frente, o que não havia admitido antes. Mas não me importuna. Respeito. Devemos ter respeito pelo que sentimos, para não vivermos pesadelos e deixarmos que o sorriso nos morra nos lábios…

Acabou o intervalo de almoço. Agora e até perto das dezoito horas, vamos continuar a falar de separações… divórcios… perdas. Causas, consequências e formas de contorno e acompanhamento de situações mais difíceis…

Quase nem se deu pelo decorrer da tarde. Preferimos não fazer o “coffee brake” e assim sairmos um pouco mais cedo.

Ainda o ouvi dizer que “ela está fina”… (a mana teve a gentileza de perguntar se ainda faltava muito para o meu fim…).

E depois veio a longa e infindável noite… Não interrompi, nem jantar, nem serão, nem boas disposições… eu estava demasiado cansada e demasiado triste, depois de um dia em formação, tão extraordinariamente enriquecedor.


12.11.06 – 01:15

domingo, outubro 22, 2006

VIVER, QUE ESTRANHO !


Estranho. Parece-me ter tido o pensamento de férias e de repente, ontem à noite, depois do trágico incidente que tirou a vida a uma louva-a-deus, que vivia no meu vaso de hortelã, devorada por um mocho ou pássaro semelhante, assaltaram-me ideias e recordações que me transtornaram completamente, ao ponto de não ter conseguido dormir.

Sem que tivesse havido razão próxima, recordei-me de uma grande amiga, que se suicidou há quase três anos. Recordei-me do namorado e por acaso até o vi na esplanada da pastelaria Suiça, com o jovem, cujo olhar apaixonado me fez pressupor que era a nova companhia. Nem olhei, para não haver cumprimentos…

Vieram, como em filme, ideias e ideias que mais pareciam sinos a tanger, para me acordar de algo que não consegui interpretar bem…

Fantástico! De todo o desenrolar de pensamentos, intercalados com outros pensamentos, como se fosse um croché, apenas ficaram dois temas que me fizeram vir escrever. Sim. Quando aperta a angústia e a ansiedade se apodera de mim, só a escrita resolve e consegue acalmar a aceleração deste velho, cansado e apaixonado coração…

Mas sem fugir, o primeiro tema que me ficou martelando nas fontes, como que um tiquetaque de relógio antigo, foi o abordado num dos Blogs de um “amigo virtual”, sobre amizade e onde transcrevia um excerto do livro “Amo-te” de Francesco Alberoni, que também transcreverei e que analisarei posteriormente, só para que compreendas porquê me transtorna a não verdade ou a omissão:

“… … …
Os amigos mantêm-se unidos porque descobrem, pouco a pouco, que têm afinidades electivas, porque fazem um esforço voluntário de ajustamento recíproco, procurando o que os une e não o que os separa. Mas se aparecerem divergências ideológicas, contrastes de interesse, ou se alguém se comportar de forma eticamente incorrecta, a relação amigável quebra-se e, normalmente, a ruptura é irremediável. O amigo pode perdoar a mentira, a traição, mas as coisas não voltam a ser como antes. A amizade é a forma “ética” do eros. Também o sentimento amoroso da amizade depende da construção comum de um mundo e da sua identidade. Intensifica-se nos momentos de mudança, de crise, quando nos abrimos ao amigo, lhe pedimos apoio e conselho. Intensifica-se com a troca de experiências, enfrentando juntos os problemas, combatendo lado a lado contra um adversário, uma ameaça, como dois caçadores, como dois guerreiros.”

Pois é! “Amigos” há-os muitos, mas amizade é algo de muito profundo e até complicado de manter. Amizade implica liberdade e liberdade só existe se soubermos respeitar a do amigo e vice-versa. Ter um amigo ou ser amigo, é ser cúmplice, é ser companheiro, é ser compreensivo e compreendido. Há um esforço voluntário de ajustamento recíproco, e tudo decorre bem…

Montaigne disse que «Na verdadeira amizade, dou-me ao meu amigo mais do que dele quero para mim.» É exactamente a forma como entendo que se deve proceder e é como realmente tenho procedido até aqui. Aristóteles desqualifica as amizades estabelecidas com base na utilidade ou simples prazer. Todos e sempre a estabelecer diferença entre amizade e interesses.

Ainda referenciando Alberoni, “o amigo pode perdoar a mentira, a traição, mas as coisas não voltam a ser como antes”, porque no perdoar não está implícito o esquecimento… e não se pode pôr de parte a componente amorosa que surge numa profunda amizade… “A amizade é a forma “ética” do eros. E “o sentimento amoroso da amizade depende da construção comum de um mundo e da sua identidade”. No entanto, se essa construção vem com base em interesses, sejam quais forem, então a amizade é frouxa e desfaz-se quase que abruptamente, pelo menos por uma das partes.
Em amizade, se se omite, estaremos a lesar essa amizade. É preferível uma discussão à perda de confiança…

Nas conversas entre amigos, o tema não é importante, porque se debatem todos com o mesmo entusiasmo e pesquisa-se e procura-se e encontram-se formas de completar ou complementar o que houvera sido tema, ou que virá a ser de novo…

O amigo é o irmão, é o primo, é muito em particular o ombro onde se derramam as lágrimas que não sabemos chorar sozinhos. No amigo está o carinho que mais ninguém nos sabe dar. Está o beijo mais doce que jamais alguém nos deu… no abraço mais apertado que nos dá força, está no rasgo de felicidade, que só por felicidade o amigo nos dá… Amigo! É quem aviva a nossa memória de passados do passado. É quem acalma a fúria de qualquer situação controversa. É sobretudo, quem nos acompanha aquando a solidão se apossa de nós e nos deixa de rastos… mas que nos põe de rastos, se nos magoa, mesmo que inconscientemente.
Dissertei sobre amizade, mas não esqueci o outro tema que me fez pensar, pensar muito… e sobre o qual escreverei mais logo…

Inspirado no texto de
e no do Blog
com o devido respeito
21.10.06
isabel

sexta-feira, outubro 13, 2006

EU, O ELEVADOR DE SANTA JUSTA E O RESTO…


Desci o Chiado. Desci a rua do Carmo. Olhei o imponente elevador, qual deus de ferro, erguido no meio da cidade. Deixei que os olhos subissem toda a estrutura. Parei o olhar no topo e sem pensar, pensei subir e descer em mergulho.

Que loucura! Suicídio! Não seria justo suicidar-me do alto de um monumento. Que espectáculo!... Mas sujeitar tanta gente a ver as múltiplas partículas de mim, ao redor de algo tão belo… não! Não seria coerente com o que penso – respeitar o que é belo.

Mais meia dúzia de passos e desemboquei no Rossio. Muita gente! Muitos espanhóis. Conheci-os pela fala; gentes de outras línguas, mas não dei atenção. A multidão em trajes ainda estivais, mais fazia lembrar o fim do verão.

Por momentos, as ideias suicidas, vaguearam, como que esquecidas, no turbilhão de outros pensamentos.

Acabara de dar uma aula a cinquenta e cinco alunos seniores. Deveria ter a auto-estima elevada, depois de tantos elogios no final do tempo… quando acabamos de dar uma aula a adolescentes ou a jovens, jamais se lembram de nos agradecer e felicitar pela aula que déramos. Foi maravilhoso!

De repente, o telemóvel tocou no fundo da mala… parecia um som proveniente do além. Não atendi. Ainda bem, porque não conhecia o número. Ficaria ainda mais desiludida… afinal, partilhar o que me satisfaz ou que me preocupa, é algo que tira a paz a quem nos preenche todos os momentos do pensar… mas para quem apenas nada existe, a não ser ? ?

Que fique em paz quem assim o deseja. Eu também hei-de ficar, mesmo que para isso concretize esta ideia fixa. Mas não devo!!! Mas morrer assim tão lentamente… para deixar que fique em paz…

Ninguém merece, cá ou lá, que façamos oferta da nossa vida. Ninguém é digno de dispor dos nossos sentimentos, brincar com as nossas emoções, como quem joga cartas e depois, friamente, dizer que quer ficar em paz.

Saí da rua e fui para o Metro. Do Metro apanhei o comboio e caminhei, caminhei até chegar ao meu canto, ao meu esconderijo, ao âmago de todos os meus segredos… e fui, noite fora, para a varanda, ver o desenrolar da noite… e sem querer, ver um vizinho, despindo toda a roupa, atrás da vidraça sem cortinas. Acariciou-se, dançou só, voltou a correr as mãos pelo corpo e já em completo tremor, deitou-se no chão e rebolou, esperneando, como se estivesse acompanhado… Voltei para dentro. Eram quase três da manhã!

12.10.06

sábado, outubro 07, 2006

UMA PEDRA


Sob esta pedra, jaz meu pensamento,
assaz triste e solitário.
Triste por estar prisioneiro
de revoltas, ingratidão, sem amor… ...
Solitário porque apenas pensou só.
Prisioneiro, por todo o tormento
de não se libertar de tanta dor…
de neste calvário, não ser o primeiro,
de não suportar certa legislação,
que por ser cruel, transforma-nos em pó,
como cacos, deixados num vidrão…


Sob esta pedra ficará meu corpo,
disforme, pela força do incorrecto…
Sobre o meu corpo disforme e morto
vão esvoaçar as pétalas da rosa,
que deixaram sobre a minha prosa,
num adeus sem adeus,
porque esta alma junta de qualquer outro deus,
vai vaguear rebeldemente solitária,
como um amaldiçoado espectro
à roda da legislação,
que condena os professores
a um desterro forçado, a um inviolável féretro…


São como pedras de xadrez, os professores.
Joga-se a preta, depois a branca…
O peão, sempre o peão, é comido,
Fica o rei, a rainha e ou doutores…
Fica uma vaga aberta e franca…
E mais um professor consumido.
Ficam mortos os amores,
fica perdida a ilusão
fica mais alguém preterido,
entre lágrimas e dores….
Esta é a vida dos professores contratados,
cujas opiniões não são tidas, nem contadas
porque apenas há, o que diz a legislação…
… e talvez até alguns favores,
para os abençoados,
ou apenas vozes silenciadas,
como prémio de consolação….


06.10.06
isabel

quarta-feira, outubro 04, 2006

INEXPLICÁVEL!!!

texto publicado no Clube dos Pensadores


Não sou obcecada pelo “faz de conta”. Não faço da crítica um “modus vivendi” como se fora um cartaz, para me mostrar numa situação de primazia, seja de que maneira for ou a quem quer que seja. Mas em abono da verdade, tentarei lutar sempre, para que se eliminem situações que considero ilógicas, a menos que haja alguém que me explique, porquê isto ou aquilo, se passa desta ou daquela maneira.

O que muitas vezes observamos e como não somos devidamente elucidados, leva-nos a pensar que certas situações são consequência de um mau funcionamento da máquina burocrática que envolve os serviços oficiais e ou que a existência dos “padrinhos”, dos “senhores cunha” ou dos “senhores silva”, continua a privilegiar “alguns”…

Estou estupefacta com o que acabo de ver e que de certa forma vai afectar psicologicamente muitíssimo um amigo e excelente professor de Filosofia/Psicologia, que foi colocado no Porto, conforme listagem da 1ª Contratação Cíclica, de 11 de Setembro, quando pela lógica deveria ter sido colocado nesta área de residência.

Repito pela lógica, porque a 28 de Setembro, saia a listagem referente à 3ª Contratação Cíclica e para meu espanto e do meu amigo, há alguém colocado, com horário completo, na Esc. Alves Redol. Este professor, vai para o Porto, tendo residência aqui, a dez minutos de distância da escola… e será que a pessoa que para aqui veio colocada está nas mesmas circunstâncias?....

Há descoordenação? Há confusão? Ou haverá paternalismo? Ou apenas irregularidades, provenientes de erros informáticos? As perguntas (sem resposta) são muitas…

Será que alguém já se deu ao trabalho de pensar um pouco, que a deslocalização de professores contratados, com toda a enormidade de instabilidades que isso promove, pode proporcionar uma má transmissão de conhecimentos aos alunos? Já foi proposto, alguma vez, fazerem-se testes psicológicos a professores privados do seu “in group”, para se avaliar o seu grau de produtividade? Já se estudou a instabilidade que causa, a qualquer ser humano, o facto de ser posto aqui agora e além depois, como se se tratasse de um “bibelot”? Os professores (neste caso os contratados), são coisas ou pessoas?

Há que reflectir e tentar encontrar novas formas, mas límpidas, quando se está a proceder à colocação de professores. Ser professor, é ter uma nobre profissão, não é apenas receber uma remuneração ao fim de cada mês…

30.09.09
isabel