terça-feira, setembro 30, 2008

NO TEMPO EM QUE O TEMPO FOI SONHO


Tempo. Tempo, mas o tempo tem muitos tempos. O tempo aparece em horas, aparece em dias e meses e muitos tempos fazem anos e eras. O nosso tempo ainda é o tempo activo e o tempo de descanso… No tempo vivemos e sonhamos e mesmo no tempo de vigília, sonhamos… dos nossos tempos e dos nossos sonhos se faz a nossa vida. Vida que tem passado, presente e futuro… sendo o tempo de futuro o mais incerto…
O estranho é não nos apercebermos que o tempo em que sonhamos, é um tempo gasto como em qualquer outra actividade, com a diferença de o sonho não ser produtivo… Talvez não seja bem assim. Por vezes, inconscientemente, estamos a sonhar e acto continuo pomos em acção o sonho que acabara de ser sonhado. Era viável o que se viveu no sonho e por isso sai escrita, musica, sai uma obra de arte ou até uma peça de marcenaria…
Todos sonhamos, independentemente do nosso tempo, porque o meu tempo não é o mesmo de qualquer outra pessoa. O tempo geral é o mesmo para todos, se considerarmos um mesmo local em latitude e longitude. A loja abre às nove horas (aqui e neste tempo) e todos os que lá trabalham têm o mesmo tempo de começo e depois de saída, mas quem vai fazer as suas compras, tem o seu próprio tempo e nesse tempo não estarão outros tempos introduzidos.
O sonho ou os sonhos que vão decorrendo nos nossos tempos, não são verdades. O sonho é um engano. É um faz de conta que apenas é realidade no sonho; (sonhos durante a vigília, são muitas vezes sonhos perniciosos…)
O tempo no sonho não é tempo contável. O sonho é intemporal no tempo em que o sonho se desenrola. Não é raro acontecer entrarmos no sono, no nosso tempo, quer fisiológico quer no fuso horário em que nos encontramos e neste tempo em que dormimos, numa viagem constante, estamos dois séculos atrás, entre intrigas palacianas, ou muitas décadas à frente, numa guerra entre seres de outros astros do sistema solar…
Sonha-se mesmo quando não nos apercebemos que o sonho está a acontecer…

25.09.08

quarta-feira, setembro 24, 2008

COMO CHOVE!


Quando escrevo, sou como a chuva que cai lá fora: molho tudo e todos indistintamente. Não tenho nem a preocupação nem a pretensão de atingir A, B ou C… Se o gorro cabe em alguma cabeça, desculpem, mas prefiro ignorar. É mero acaso. Mas tenho dúvidas que existam seres similares àqueles que a minha imaginação cria…
Quando pretendo mandar recadinhos, escrevo uma carta ou pego no telefone e despejo o saco, se o interlocutor estiver pelos ajustes de me ouvir… normalmente não está ou tem uma tão forte argumentação, que me deixa no silêncio… São tácticas peculiares do aconselhamento filosófico, a ética é posta em evidência com argumentações inefáveis…
A propósito de me deixar no silêncio, recordo-me o que aconteceu esta manhã… Preparava roupa para meter na máquina, e como sempre, viro a roupa das avessas e despejo os bolsos, para confirmar que não há nada que possa prejudicar a máquina e espanto! O meu N 78 estava no bolso das calças que despira no dia anterior… Incrível! Fartei-me de o procurar quando o outro foi a carregar e nada. Nada de contactos! Quase chorava com medo de o ter perdido… mas a surpresa foi excelente. Já está comigo! E veja-se que tinha várias chamadas não atendidas… como o havia de ouvir? Vá agora explicar a quem me ligou, o que aconteceu… Estou mesmo a ver que alguém, super, não vai acreditar. Inconveniências de quando se usa a mentira e não se acredita na verdade dos outros… Aposto que neste momento há birra, para dizer que birra com birra se paga… entretanto, e porque ainda estou a deglutir algumas “coisinhas”, prefiro deixar arrefecer as ideias e fingir que ignoro que a pessoa X e a pessoa X’ é que são as ideais e que estão na rota do encantamento…
Parou de chover! O hino ao Outono cantou os seus primeiros acordes e agora os pássaros cantam, como que a saudar a lavagem das suas plumagens…
Trovejou por breves instantes e à distância, ainda se ouve um sumido ribombar… são tardes como esta que me deixam marcada a ausência e fazem reavivar a saudade… mas tudo acaba e nisso tens razão. Parte para outra, porque mesmo dos que morrem, a saudade se esvai… é como a nuvem, desfaz-se com o vento.


22.09.08

segunda-feira, setembro 22, 2008

PALAVRAS ESFARRAPADAS

Esfreguei os olhos. Voltei a esfregar, como quem torce o pano de limpeza, para que não escorram mais gotas, neste caso, de lágrimas… mas não choram apenas os olhos, chora a alma, e essa, tão doloridamente, como que em despedida, e, plenamente consciente de que a vida acaba aqui… esta fase da vida.
Perdi! Não joguei, nada disso. Há coisas muito mais sérias do que jogar… muito embora a vida seja um conjunto de jogos, em que uns aplicam, outros gastam e outros divertem-se a ver os que aplicam e os que gastam…
Acordei cedíssimo. A dor de cabeça prolongou-se pelo dia todo. O pulso voltou a subir… a zona a chatear… e o cansaço habitual… e para cúmulo, ainda me põem nos confins do desprezo, em troca de umas modernices… é verdade, afinal o jogo dos interesses é muito forte! E ainda nos espantamos com o que figuras públicas fazem, nas trocazinhas de favores… quando toda a gente joga no favorecimento dos seus interesses e nos seus encantamentos, para usufruir do benefício de estar no bem bom. Daí, esquecer os que estiveram (mas a fazer de conta) no top mais… porque realmente ninguém está de certeza nessa posição. No dia em que já não interessa, passai bem e até depois…
Até parece que estou azeda… mas não. Estou desiludida e muito. Não me conformo de nunca passar de um mero objecto de utilidade para quem tem a habilidade de enganar com palavrinhas doces e às vezes bem amargas… bem me lembro ainda de uma palavra que me ofendeu bastante -“nojo”- porque o gosto do tabaco era infernal… mas haveria modos diferentes de o dizer… Consola-me saber que deixaram de haver fumadores e outros tipos de odores… Eu continuo a usar o Chanel 5…

22.09.08

sexta-feira, setembro 05, 2008

SEXTA-FEIRA!

Depois de um dia acinzentado e ventoso, começou a chover. Gosto da chuva, quando ao de leve cai nas folhas das árvores e plantas e deixa que o som nos embale e acarinhe a nostalgia que estes dias nos deixam…
Chove ainda, depois da noite nos ter abraçado. Chove e choram os meus olhos por uma saudade que teima em entranhar-se por todo o meu ser.
A saudade é uma forma de fazermos sentir dentro de nós quem não está perto. É doloroso apenas sentir distância, quando temos alguém tão dentro de nós, a preencher nossos momentos e todos os nossos pensamentos…
Saudade de alguém, saudade de um lugar, de um objecto que estimámos e que por motivos que desconhecemos nos apartamos dele… é o que sinto quando recordo a caixa de madeira, de dois andares, onde guardava os lápis de cor, quando ainda era muito pequena… Saudade da nogueira, no recanto da quinta que mais me atraia, e que pelos meses de Setembro, em cada ano, me deixava colher as nozes, que ainda meio verdes, me sabiam deliciosamente… saudade das aventuras e das corridas, dos amiguinhos com quem partilhava rebuçados e chocolates, dos cadernos que escondia, cheios de desenhos e muitos versos.
Mas hoje a saudade ainda é outra… é saudade de mim própria… Saudade de correr pela rua fora para apanhar um autocarro, saudade de carregar no acelerador para não deixar que me ultrapassassem na estrada… saudade do que não vou voltar a ter… tardes de lançamento de livros, idas ao café do bairro com o pretexto de escrever, saudade sobretudo da companhia de quem vai deixar de vez de estar perto…. Saudade que consome, que destrói, que causa stress, que gera depressão, que deixa a alma sangrando de dor… e ainda há quem consiga deixar que amizades se percam…

05.09.08

terça-feira, agosto 19, 2008

O MEU CANAVIAL


Amigos! Nem vos peço para acreditar. Levantou-se uma ventania, que sopra num ulular enfurecido, que mais parece uma tempestade invernosa do que uma tarde solarenga de Agosto…
Não tenho por hábito confessar nada do que faço ou vou fazer, porque ainda há por aí muitos preconceituosos que me iriam julgar… e juízo de valores não os admito para mim, porque não os faço a outros.
E vai daí, um dia destes passei por um canavial aqui perto e como tinha imensa necessidade de falar, abeirei-me e disse o que me ia na alma… receio bem que o que lá deixei foi mesmo a alma…
As canas hoje dançam num rodopio indescritível… e cantam num assobio de enlouquecer… e cantam os meus segredos… Nem nas canas posso confiar…
Ora veja-se que as canas, indiscretas, assobiaram tudo o que lhes disse e ao sabor do som do vento que lhes vai varrendo as folhas, vão revelando, passo a passo, os meus dizeres… Parece incrível!
Não deixei nomes no canavial… deixei sonhos e projectos e o que não queria que se descobrisse… era só meu e do canavial… agora é do sopro de vento que ruge como que querendo divulgar o que eu tanto escondia…

19.08.08

sábado, agosto 16, 2008

A PENSAR…

Se não me doesse a cabeça, possivelmente escreveria um texto longo… longo que teria de contar as palavras para não ir além do que é permitido pelo bom senso. Nunca se deve abusar da paciência e boa vontade dos leitores… muito embora isso não tenha qualquer significado no que respeita a ser comentado o trabalho que se apresenta… claro que a justificação que recebi, é o facto de nada haver a acrescentar… eu diria, preguiça de pensar em uma resposta… Vem de lá a “cusquice”, a “ratadela”, mas escrever meia dúzia de “tretas” para se perceber que o trabalho que fizemos foi lido, isso dá muito trabalho…
Estou precisamente a lembrar-me dum trabalho que li no Blogue do Clube dos Pensadores, cujo título era Pensar Alto, da autoria de Joaquim Jorge e que apenas teve um comentário… não acredito que apenas uma pessoa tenha lido esse texto…
Começava por dizer o autor que a política deveria ser para servir os cidadãos e realizar os seus sonhos… mas que percebem os políticos de sonhos? Admito que nunca pensaram que, comer um simples prato de sopa, pode ser um acto político… Como é que os políticos podem realizar os sonhos dos seus concidadãos, se não vasculham bem quais as suas opiniões sobre certos assuntos que são do interesse comum? Ou quais são as sua preocupações fundamentais? Alimentam sim, o faz de conta, com algumas notícias bombásticas, como por exemplo a o desemprego estar e diminuir… Ninguém escuta ninguém e o importante é impor o que previamente é decidido entre as quatro paredes de um gabinete… sejam quais forem as consequências…
Há ingredientes que são essenciais para que os políticos sejam levados a sério e que as suas directivas sejam credíveis. É necessário respeitar para que se seja respeitado. Empinar o nariz e dizer que é assim, não leva a lado nenhum. Milhentas pessoas vão fazer exactamente o oposto… Quando se manda, é preciso saber mandar… e nem muita gente o sabe fazer em plena consciência. A partilha e a cumplicidade são ingredientes que têm de fazer parte dos que nos dirigem, para que possam ser ajudados a cumprir as suas decisões coerentemente e atempadamente, para que se possa interiorizar e entender bem o que é pretendido e quais as finalidades.
Claro que todos entendemos a conjuntura internacional e os respectivos problemas económicos, mas como há sempre possibilidade de serem feitas previsões, deveriam os pequenos investidores ser honestamente informados dos riscos que, eventualmente, podem correr, evitando assim de serem perdidos alguns fundos que as pessoas idealizavam ter como economias… é um detalhe insignificante, mas produziria o efeito de confiança nos cidadãos deste país.
Uma outra frase que me tocou foi aquela que diz termos na vida duas opções – ver passar a vida ou tentar alterá-la… Pensem! E façam as vossas opções. Mas, digam… gostamos sempre de sabem o pensam os nossos patrícios.
Hoje fico por aqui… amanhã há mais.

15.08.08
VER: CLUBE DOS PENSADORES

sábado, agosto 09, 2008

PSICOSE


Em 1845, um estudioso desta matéria, Ernest von Feuchtersleben introduziu o termo “psicose”, que é assim, palavra mais recente do que a palavra “neurose”.

A oposição entre a palavra neurose e psicose, por finais do século XIX, estabelece-se como que linha de demarcação entre a loucura e as outras perturbações, oposição esta, que se manteve até aos anos mais recentes.

O DSM-III (actualmente já DSM-IV com anotações actuais e que é uma espécie de Bíblia dos Psicólogos), tentou suprimir o termo “neurose” e reduzir o termo “psicose” para o adjectivo “psicótico”, contudo, a maioria dos psicopatologistas continua a utilizar o vocábulo “psicose” para designar um conjunto de perturbações caracterizadas por alguns elementos, como a gravidade, delírio, a perda da relação com a realidade e outras, que em senso comum se designavam por “loucura”.

Se quisermos falar de “psicopatologia das psicoses”, estamos a tomar uma posição em simultâneo do que é a psicopatologia e sobre a existência de uma forma de sofrimento específica e considerada, particularmente, grave. Os psicólogos consideram a psicopatologia a psicologia do patológico, segundo Pedinielli, 1994, isto é, o estudo e a teoria psicológicos das formas de sofrimento, sejam elas quais forem, as causas das mesmas.

A psicopatologia baseia-se em situações concretas de interacção com os doentes que estejam a apresentar uma psicose e produz uma interpretação psicológica dos fenómenos.

Dois níveis complementares são abrangidos pela psicopatologia:
. O primeiro tem a ver com a descrição dos aspectos psicológicos dos factos patológicos como as perturbações da percepção, do raciocínio, delírio, e outros; os trabalhos psicológicos sobre “o que se viveu”, “o imaginário”, e sobre a linguagem e o pensamento que ainda correspondem a este nível.
. O segundo nível diz respeito às teorias explicativas psicológicas das perturbações, o que não implica que elas sejam automaticamente teorias da causa das doenças.

A psicologia clínica é o instrumento que permite aos psicólogos identificar, analisar e interpretar os elementos que se trocam na relação com o doente. Saliente-se que o saber psicopatológico não é um sistema dogmático de interpretação que se aplicaria aos discursos dos doentes.
Fazer psicopatologia clínica é conseguir maneira de suscitar o discurso, de se interrogar sobre a sua lógica e de a interpretar.

Há opiniões diferentes. Iremos tentar mostrar alguns pontos que poderão ajudar a entender melhor. Os esclarecimentos sobre o ponto de vista de autores diferentes seguirão em breve.

Consulta a:

- Jean-Louis Pedinielli
- Guy Gimenez

isabel carmo

09.08.08

sexta-feira, agosto 08, 2008

JOGOS OLÍMPICOS

Zanguei-me com o tempo. Passou vertiginosamente esta tarde. Bem sei que desde a uma da tarde que não saí de frente do ecrã da televisão, para assistir à abertura dos Jogos Olímpicos. Por isso, o tempo em chamadas telefónicas, nem deu para absorver a delícia que é ouvir a tua voz. Paciência. Possivelmente, à hora que os mochos dão as suas consultas aos outros pássaros nocturnos, vou ouvir o meu Cuco cantar e lá estarás para dar as boas noites da praxe.

Mas zanguei-me com o tempo porque entre as treze horas e dez minutos e as dezassete e trinta, nada mais fiz que ver o maravilhoso espectáculo que foi a abertura dos Jogos Olímpicos na China. Mereceu a pena, muito embora esteja sempre habituada a fazer algo a seguir ao almoço, para não me deixar amolecer no cadeirão em frente do aparelho de televisão…

Magnifico espectáculo de cor, coreografias e de fogo de artifício. Creio que jamais vi espectáculo tão sumptuoso.

Milhares (dois mil e oito) de figurantes deixaram-me deliciada nas suas vestes magníficas. A maior parte das delegações de atletas de cada país, também trajando com cores vivas, desfilaram durante muito tempo. A delegação portuguesa, que passou na 178ª posição, também me agradou. Os nossos atletas caminhavam com ar convicto de que irão ser merecedores de um medalha.

Gostei de ver o Presidente do Brasil, Lula da Silva, o Presidente de Timor Leste Ramos-Horta, O Príncipe Alberto de Mónaco, os Príncipes das Astúrias Litizia e Felipe de Espanha, o Presidente de França Nicolas Sarkozy, e muitos outros presidentes e primeiros ministros de muitos outros países. Comovente o acenar das delegações para os seus dirigentes.

Não referi Portugal, porque nem Presidente nem Primeiro-ministro estiveram a assistir a esta cerimónia ímpar. Estranho, não é? Pois não é estranho não senhor. Em Agosto, pleno mês de verão, há férias e nem o Senhor Presidente nem o Senhor Primeiro ministro poderiam abdicar de uns dias, sacrificando as suas férias, para serem a força máxima a representar o nosso país… a não ser que tenham consultado o oráculo e tenham receado que algo de estranho os poderia “danificar”…

Achei interessante saber que os números são muito importantes para os chineses, daí o número de figurantes ser dois mil e oito, tal como o ano em que estamos… e logo hoje é dia oito!...

“Estou sim, docinho?” “Que bom ouvir-te de novo.” “Bla…Bla… Bla…”
A conversa durou pouco por causa da falta de carga. Amanhã haverá mais… e entretanto continuo a remoer por ter visto tantos representantes máximos de tantos países e do meu, apenas foi uma figura de representação…


08.08.08

segunda-feira, agosto 04, 2008

A MINHA VARANDA

Passei anos a abrir a janela da varanda para admirar o Monte Gordo, logo pela manhã cedinho, sentindo ora a brisa suave da Primavera, ora o agreste vento do Inverno ou o atrevido e insinuante vento do Outono, cheio de nevoeiros, deixando mistérios para além da cortina meio opaca, a esconder o Tejo…
Passei anos a olhar a metamorfose dos verdes, entre os verões quentes e os Invernos frios e húmidos. Observei as aves, umas canoras, outras de grunhido agudo, ao anoitecer… e desde a minha janela da varanda fui sempre esperando, para além do mais, o ver-te…
Via os carros da primeira curva, os que desciam mais afoitos, os destravados e em perícia guinchando na ultima curva da estrada… quando se aproximava o teu, ficava esperando do outro lado, até ouvir o puxar do travão de mão… passei anos a acompanhar todos estes pequenos sentires. Agora! Para agora, ficar perdida, por trás dos vidros, sem abrir a minha janela da varanda, para não me constipar e poder agravar o estado daquela saúde que julgava ter, mas que não terei mais…
Passei anos a respirar o ar que entrava sem pedir licença e muito informal, me lambia o corpo, me enchia a cara de um torpor, como quando se ouve uma bela melodia ou se imagina a língua a roçar a pele das costas… passei anos a esperar…
Durante estes anos em que num ritual quase que sagrado abria a janela da minha varanda e esperava que seguisses estrada acima e que pelo fim do dia esperava que regressasses… esqueci que os anos passaram… passaram mesmo!
Hoje a janela não se abriu uma vez mais. Esteve de chuva e um tempo carrancudo deixou-me mais amedrontada… apenas falámos.
A noite desce e os silêncios intercalados com os barulhos característicos vão embalar mais um dos meus pensamentos, carregados de revoltar e fúrias, por guardar para cá da janela, que mantenho fechada, os desagrados em que vamos vivendo, com contrariedade.
E não respeitando absolutamente nada nem ninguém, o tempo entreolha o tempo e deixa-me aqui, um ror de meses passados, continuando à espera, agora não de vida, mas de uma morte assegurada que um dia destes virá, como visita de cerimónia, mas que ao sair me levará, com todas as promessas que nunca soubeste fazer-me… e eu carente de todas as belezas que deixei de ver pela minha varanda, vou acreditar e deixar-me levar, como que me certificando que finalmente estou certa…
Nem olharei para trás para me despedir. Não terei tempo ou talvez, se o tiver não o farei… poderei estar a recordar as vezes que saíste e nem te lembraste que poderia estar na varanda para te dizer adeus…
E agora tudo está diferente. O Monte Gordo ficou com muitas construções, novos bairros, onde irão viver outras gentes, onde outros costumes se instalarão e se ainda por cá estiver, apreciarei todas essas mutações…

04.08.08

terça-feira, julho 29, 2008

A CARTA PARA O CONCURSO


Olá!

Juro que não sei como começar esta carta. Se te chamar meu amor, minha vida ou apenas como a comecei, por um insignificante olá. Mas tenho mesmo de te escrever esta carta e enviá-la, mesmo que nem possa caminhar para a depositar no receptáculo do marco do correio. É premente que a venhas a ler, mesmo que chegue atrasada e já depois do depois… É justo que saibas porque deixaste de fazer parte da minha vida (vida? Será que ainda estou viva?)
Amei-te. Amei-te muito, quer queiras acreditar, quer não. E se algo matou esse meu amor, não foi de mim que partiu, mas apenas e somente de ti.
Aceitei todos os argumentos que expunhas para justificar todas as atitudes que tomavas. Aceitei mentiras, insultos, fingimentos, todos os contornos utilizados para me pôr à prova… Aceitei que te introduzisses nas minhas amizades e passasses a ser amizade de amigas minhas, mas quem te amava era só eu…
Chegou finalmente aquele dia que eu procurava no tempo, para ter coragem de enfrentar a realidade e deixar-te esta carta, não como uma despedida… não tenho palavra para significar isto que quero dizer… mas para marcar um fim neste tempo de amargura, que foi todo o tempo em que te amei… e será que deixei de te amar?
Mesmo nesta dúvida que me deprime, prefiro considerar que deixei de te amar e que o quanto me sinto magoada me faz esquecer que apenas existias como o meu amor… Um dia vais recordar-me… talvez até tenhas muitas mais para recordar…
A última vez que olhei o mármore esbatido e gasto pelos sóis e chuvas que lamberam a pedra, prometi a mim mesma que não mais voltaria e que teria de esquecer… e pelo muito que te amei, e que talvez não venha a esquecer-te, não voltarei, porque nunca me amaste e porque nunca me pedirás desculpa por me teres induzido no erro de te amar…
Queria não mais sentir o fulgor dos teus beijos. Queria que apenas tivesse sido um pesadelo. Queria não sentir a repulsa que sinto agora… sabe-lo porquê.
Jamais houve tempo para te dizer tudo isto, por isso te escrevo esta carta… e nunca esqueças que te amei muito… e perdeste o meu amor… perdeste-me.
Até sempre, porque na eternidade reencontrar-nos-emos.
Adeus!

28.07.08

(concurso “A Melhor Carta de Amor”. Não enviei por a achar ser triste demais)

sábado, julho 26, 2008

A SÍNDROME DE BURNOUT

Toda a gente já ouviu falar de stress e sobretudo, de stress profissional, o qual se caracteriza por ser uma exaustão emocional, uma avaliação negativa de si mesmo, uma depressão e insensibilidade no que respeita a quase tudo e todos (diria que há um mecanismo que funciona como defesa emocional não intencional no enfermo desta síndrome, quanto à insensibilidade perante certos factos ou situações), o que para alguns estudiosos da matéria passou a designar-se como a Síndrome de Burnout.
Burnout é uma expressão na língua inglesa que traduzida significa - burn = queima e out = exterior, fora – sugerindo assim que quem está com este tipo de stress consome-se física e emocionalmente (uma característica é a inferiorização daqueles de quem se diz se amigo(a)) passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço (e existe sempre alguém que se pretende marginalizar).
Esta síndrome refere-se a um tipo de stress ocupacional e institucional com predilecção para profissionais que mantêm uma relação constante e directa com outras pessoas, principalmente quando a actividade é considerada de ajuda, como médicos, enfermeiros, professores e outros.
Há ainda outros estudiosos e autores de trabalhos que nos dizem julgar que esta síndrome é diferente do stress genérico, contudo e como opinião pessoal diria que poderemos considerar esse quadro de apatia extrema e desinteresse, não como sinónimo de algum tipo de stress, mas como uma das suas consequências e bastante sérias.
Esta síndrome foi observada, originalmente, em profissões predominantemente relacionadas a um contacto interpessoal mais exigente, tais como médicos, psicanalistas, carcereiros, assistentes sociais, comerciantes, professores, os que atendem público, enfermeiros, bombeiros e outros com contactos com público que nem sempre seja fácil. No entanto, hoje em dia já se alargaram as observações a outros ramos profissionais como os que interagem de forma activa com pessoas que cuidam ou que solucionam problemas de outras pessoas, obedecendo a técnicas e métodos mais exigentes, fazendo parte de organizações de trabalho submetidas a avaliações.
A Síndrome de Burnout também está a ser definida como uma reacção à tensão emocional crónica gerada a partir do contacto directo, excessivo e stressante com o trabalho, fazendo com que a pessoa afectada perca a maior parte do interesse na sua relação com o trabalho por forma a que as coisas deixam de ter importância e qualquer esforço pessoal passa a parecer inútil.
A pouca autonomia no desempenho profissional, os problemas de relacionamento com as chefias, os conflitos entre trabalho e o núcleo familiar, o sentimento de desqualificação e falta de cooperação de equipa, estão entre os factores aparentemente associados ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout.
Os autores de trabalhos nesta área que defendem a síndrome de Burnout como sendo diferente do stress, alegam que esta doença envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, clientes, organização e trabalho, enquanto o stress apareceria mais como um esgotamento pessoal com interferência na vida do sujeito e não necessariamente na sua relação com o trabalho. Contudo, e pessoalmente julgamos que a síndrome de Burnout seria uma consequência mais depressiva do stress desencadeado pelo trabalho, sobretudo no relacionamento interpessoal.
Com sintomatologia básica desta síndrome teríamos, inicialmente, uma exaustão emocional, onde a pessoa se sente a não poder mais dar nada de si mesma, aqui um sentimento de falta de realização pessoal no trabalho, o que afecta sobremaneira a eficiência e habilidade para a realização de tarefas e de se adequar à organização. Seguidamente desenvolvem-se sentimentos e atitudes muito negativas, com o por exemplo, um certo cinismo na relação com as pessoas do trabalho onde estão inseridos e aparente insensibilidade afectiva.
Diria para concluir, que esta síndrome é o resultado do stress emocional na interacção com outras pessoas. Algo diferente do stress genérico porque a síndrome de Burnout incorpora geralmente sentimentos de fracasso cujos principais indicadores são cansaço emocional, despersonalização e falta de realização pessoal (com actos demarcadamente agressivos para os que diziam amigos(as).

26.07.08

quarta-feira, julho 23, 2008

UMA LENGALENGA DE ASSUNTOS…


Não vou resistir à tentação de fazer a experiência que o meu primo fez quando escreveu um livro com muitos textos e nos quais nunca usou os pontos finais nem os outros que temos de mudar de linha porque ele conseguiu despejar tudo o que queria dizer sem usar nada de artefactos como são as vírgulas ou pontos e outros mais sinais ortográficos que até por sinal vão cair em desuso caso nos embrenhemos neste acordo com o qual estou em pleno desacordo porque não tem cabimento dizer que um pacto é um pato ou um fato é um facto porque acabamos por não saber quem anda vestido ou quem vai nu e assim como outras coisas mais que entram em conflito com as minhas maneiras de concordar ou discordar e mesmo a propósito hoje fiquei em pleno desacordo com o prato que comi ao almoço ao qual chamaram pescada com todos e os tais todos eram cenouras e batatas e ainda brócolos e apenas um ovo por isso não eram todos porque o ovo era só um e enquanto almoçava também fiquei confusa porque acho muito mal explicada toda essa “triste novela Maddie” que me parece que tem um cortinado bem espesso a cobrir algo que parece que não se quer ver como muitas coisas que por esse mundo andam por trás dos bancos de nevoeiro e das ideias meio baralhadas dos habitantes deste planeta e em especial os cá deste “cantinho à beira mar plantado” e que se chama Portugal e que começou a existir graças a um senhor que se chamou Afonso Henriques e foi o primeiro rei deste reino que deixou de ser reino porque uns carolas acharam que uma republica era muito mais eficaz do que um reino e vai daí que andam há um ror de anos para mostrar isso e ainda não conseguiram porque não é nada fácil governar um reino ou uma republica onde todo o mundo reclama e nunca está satisfeito com nada e critica após critica sem darem nenhuma sugestão para melhorar toda esta confusão e isto só porque os homens são sempre homens quer sejam reis ou plebeus e nada os fará mudar a sua condição de Homens!


23.07.08

domingo, julho 20, 2008

AS EMOÇÕES E AS CORES


Em continuidade às pesquisas que venho fazendo sobre alguns temas que gosto de actualizar, cheguei a este, sobre as cores e as emoções. Aquando ainda aluna, fiz um teste semelhante, que aliás me deixou preplexa. O actual não me deixou menos preplexa… realmente as cores interagem com as emoções…
Ora vejamos, as cores evocam estados interiores e para entender esta relação entre emoção e cor, é necessário lembrar a já conhecida relação entre luz e cor, simbolizada pelo arco-íris.
A luz afecta os neurotransmissores do cérebro, os quais são os responsáveis pelas mensagens passadas dos nervos para outros nervos e músculos de maneira que a primeira sensação de cor é puramente vegetativa e emocional provocando ódio, amor ou outros sentimentos.
Qualquer análise das reacções humanas diante das cores, deve levar em conta também as influências sociais, pois enquanto o costume no Ocidente é o de usar a cor preta para o luto, há outros lugares no mundo onde se usa o branco para manifestar o pesar pelo falecimento de alguém.
Também e para além dos lutos, interliga-se a cor à sensualidade, à tristeza e a muitos dos estados de alma que vamos atravessando pela vida. Mas sem desviar o conteúdo, fruto de alguma pesquisa, vou deixar aqui o resultado do teste que fiz. Não vou entrar em detalhes, mas garanto que é a exacta tradução do momento em que o fiz:

Como você opera, age, frente aos seus objectivos e desejos:


Exige que ideias e emoções se unam e se mesclem perfeitamente. Recusa-se a fazer quaisquer concessões e a aceitar quaisquer acordos.
Impõe a si mesmo objectivos idealistas mas ilusórios. Tem sido dolorosamente desapontado e despreza a vida, numa auto-aversão que o deprime. Quer esquecer-se de tudo e recuperar-se numa situação confortável e livre de problemas.

Suas preferências reais:

O medo de repulsa e a extrema cautela da sua aproximação tornam-lhe difícil alcançar o grau de intimidade e identificação que deseja.
É incapaz de empenhar esforços para alcançar seus objectivos. Sente-se despreparado, desejando maior segurança, afecto sincero e menos problemas.

Sua situação real:

É infeliz com a resistência que encontra, sempre que tenta afirmar-se. Todavia, acredita que não há muito o que possa fazer, e que deve conformar-se com a situação.

O que você quer evitar:

Interpretação fisiológica: Tensão e ansiedades resultaram de desapontamento emocional. Interpretação psicológica: Uma relação emocional não está mais correndo bem, revelou-se profundamente decepcionante e é agora considerada ligação deprimente. Enquanto que, por um lado, gostaria de libertar-se completamente dessa ligação, por outro, nada quer perder nem correr os riscos de incerteza e de eventual possibilidade de maior desapontamento. Essas emoções contraditórias oprimem-no a tal ponto que tenta ignorá-las sob uma atitude apática e circunspecta. Em suma: Tensão oriunda de desapontamento emocional.

Seu problema real:

A ansiedade e a insatisfação contínua, seja em seus empreendimentos ou nas frustrações emocionais, têm produzido considerável tensão. Reage atribuindo-as à total falta de compreensão por parte de outros e adoptando uma atitude desdenhosa e desafiadora.

20.07.08

sexta-feira, julho 18, 2008

EM DESALINHO


Por vezes, para chegarmos a algumas conclusões sobre um qualquer estudo, temos de aprofundar diversas etapas, para entendermos o ponto inicial do nosso pensamento. Partindo deste ponto, direi que o Ego não é mais nem menos do que a soma dos pensamentos, das ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais. Diria mesmo que é a parte mais superficial do individuo, a qual modificada e tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante selecção e controlo de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que brotam do indivíduo. Obedece ao princípio da realidade, ou seja, à necessidade de encontrar objectos que possam satisfazer ao Id. sem transgredir as exigências do superego. Quando o ego se submete ao Id., torna-se imoral e destrutivo; ao submeter-se ao superego, enlouquece de desespero, pois viverá numa insatisfação insuportável; (se não se submeter ao mundo, será destruído por ele…)…
Por outro lado temos a emoção que se diferencia do sentimento, porque é um estado psicofisiológico. O sentimento, por outro lado, é a emoção filtrada através dos centros cognitivos do cérebro, especificamente o lobo frontal, produzindo uma mudança fisiológica em acréscimo à mudança psicofisiológica.
Mas peguemos em sentimentos; entre os muitos, aparece o da humilhação que visa essencialmente rebaixar o, ou os outros, quer física quer moralmente, de modo a que este ou estes se sintam anulados. Actualmente, e proveniente de estudos cruzados, temos que esta também é uma forma de bullying.
Ora uma das formas de fazer baixar a auto estima é humilhar. É fazer o outro sentir-se o culpado do acto ou da atitude que foi induzido a tomar. Perspicaz!
Há várias maneiras de humilhar e a mais comum é fazer que as outras pessoas se sintam infimamente pequenas perante o humilhador, que regra geral usa estratagemas inteligentemente estruturados para que de humilhador passe a vítima, quebrando todas as regras que em sociedade devem ser respeitadas.
Há quem designe este tipo de humilhação, por humilhação subtil ou velada. É complexa e subjectiva e muito mais difícil de lidar e prejudicial do que o tipo de humilhação mais comum. A humilhação velada insere-se num gesto, numa frase dita, ou até não dita; está no subentendido, numa simples virgula ou no desdém, ou na indiferença ou ainda no ignorar a existência da submissa (a verdadeira vítima), no fazer com que esta se sinta numa completa inutilidade, dando origem a que um sentimento de isolamento, abandono e impotência, exclusão e humilhação radical seja sentida. O humilhador (a)(dominador(a)) sabe como usar a alavanca emocional que ele(a) bem conhece como sendo a forma mais dolorida para aquele outro ser, que por causa disso se irá sentir o mais desprezível à face da Terra: um ser sem eira nem beira, um ser preterido e isolado, sem chão, sem confiança e de baixa auto estima… vivenciando naquele momento e por tempo indeterminado, por vezes com lágrimas, ora silenciosas, ora invisíveis e muitas das vezes escondidas… porque humilhação dói por dentro e tão profundamente, que o humilhador(a)
Jamais consegue enxergar onde estão as feridas que causou.
Grave é ainda, conclusões referidas sobre o quanto o humilhador(a) é capaz de se aperceber se a sua vítima consegue aguentar mais humilhações, aumentando ou diminuindo a sua actuação, ou se deve parar e abandonar a vítima aos seus desesperantes silêncios, à sua solidão mortificante.
Simples formas de agir no quotidiano das pessoas, podem ter como pano de fundo esta panoramica. Teremos de interiorizar que a humilhação (actualmente bullying – mais a nivel de crianças e adolescentes, mas que se verifica em outros estratos), deverá ser combatida introduzindo a todos os níveis mais profundos conhecimentos de cidadania.

17.07.08

quarta-feira, julho 16, 2008

ALMA…


Procurei por aí e não encontrei em qualquer parte a alma. Todos falam dela. Todos enaltecem os seus valores, lamentam os seus estados, nem sempre de muita paz…
Há quem refira os poemas da alma… alma perdida… elevação da alma… os estados da alma… e até há quem escreva apontamentos da alma e cadernos da alma…
Mas onde está, que faz e porquê não encontro a minha, quando todos falam das suas?...
Pois! Possivelmente a minha não sabe exprimir o que por ela vai… e vai daí, é como se não existisse.
Claro que não teria a ousadia de usar a dita, caso a tivesse, para a fazer de mensageira, se, sobretudo quisesse dar “um pacote de chá” a alguém…
Alma minha! Vagabunda e solitária (por isso não a encontro), não escreve em cadernos nem sabe aceitar umas “patadazitas” que por distracção lhe dão. Reclama! Reclama, sobretudo, a falta de atenção, o espírito de solidariedade e o ser preterida em favor do que está “na berra” no momento. Reclama a falta de sinceridade numa amizade; o desrespeito por essa amizade.
Mas disseram-me que realmente tinha alma. Fiquei espantada. Se a tivesse, haveria outra alma que a entenderia e não a desconsideraria “por dá cá aquela palha”. Mas vou tentar descobrir se ela andará por aí ou não… talvez não a tenha procurado bem…


16.07.08

quarta-feira, julho 09, 2008

SEPULCRO DE PALAVRAS



Prefiro manter-me num silêncio forçado. Prefiro guardar as palavras, prefiro mesmo enterrá-las, elas que se vão atropelando entre desconexos turbilhões de pensamentos, de revolta, de ira, de ódio, de desprezo: sobretudo de incompreensão.

Prefiro silenciar o som dos sucessivos gritos que interiormente vou soltando. Prefiro que me julgues depositada no além da existência e assim possas, de corpo e alma, dedicar-te às delícias que preenchem o teu mundo. E quão distante está o teu mundo do meu!... É pena não perceberes que apenas és o que és: um capricho de apostador.

O meu silêncio não vai permitir que oiças como ecoa, dentro de mim, toda a raiva que em mim fervilha, quando balbucio que não vais fazer de mim palhaça o tempo inteiro. Alguém pode ter ganho mais esta batalha, mas a guerra ainda não acabou… se algum dia existir, talvez me recordes… tardiamente… o tal ar sonso e comovedor pode ter conquistado o incauto, mas não me assusta… aprendi a ver entre as sombras. O meu silêncio é e será a potente arma de defesa.

O silêncio, a indiferença, o desdém com que passarei a olhar-te, ferir-te-ão do mesmo modo que o abandono, a troca, a agressiva forma de te expressares nas constantes referências ao que te desagrada, me agride a mim e como enalteces todo o ser que te amachuca mas por quem estás em plena obsessão… no meu silêncio, as gargalhadas de dor serão forma de esquecer a minha mágoa…

Sabes o que é um embondeiro? É uma árvore muito frondosa, imponente que tem o seu habitat em África… os naturais comparam as grandes figuras a esta espécie, pela sua grandeza e pelo seu porte respeitável. Eu serei o embondeiro, alto, frondoso, distante, que darei a sombra e o apoio…

… e as minhas palavras ficarão em campa rasa na base do embondeiro, para que as oiças, nas noites em que o vento a ulular repita o que sempre desdenhaste…


09.07.08

REDIZER O QUE FOI DITO


Os motivos inventam-se e reinventam-se. A nossa imaginação é incomensuravelmente potente para deixar que temas e mais temas corram como caudais de grandes rios descendo planaltos… e a escrita flúi numa reinvenção constante de cada palavra, com a sua multiplicidade de significados, que vai traduzindo as suposições existenciais, vestindo e travestindo a corrente da nossa fantasia e dando vida ao que não sendo, passa a ser, pela força que o sentir exerce dentro de cada um de nós. E que salutar é esse sentir! Salutar, mas questionável… É vida que nos faz manter vivos e é por isso que adoro escrever e que em cada poema redigo o que já disse e que outros disseram também, porque o sentiram ou talvez não, ou porque o disseram ou o sentiram e de forma diferente da minha.
Poema após poema, com todas as palavras usadas e gastas que faço brotar do meu pensamento, vou permitindo que me acariciem a alma e ao balbucia-los, abandonam nos meus lábios uma doçura igual à dos teus e a que chamo vida.
Mesmo que vás repetindo que a escrita é um jogo de palavras, que me repito e de nada serve o que digo e redigo, não resisto e vou repetindo o que não ouviste, nem leste lá pela terra do nada, que te absorveu e absorve, num constante questionar de tudo e de todos… Tudo é questionável! Mesmo o que é evidente é questionável, por isso, as minhas palavras usadas, repetidas e gastas serão como o eterno tanger dos sinos, não para cantar que te amo, mas para tocar a finados acompanhando o que restou do que nunca consegui dizer, por ter só palavras gastas e questionáveis…

09.07.08

sábado, junho 28, 2008

EFERVESCÊNCIAS DA MEMÓRIA


Irrita-me profundamente que me tomem por idiota ou que me queiram deitar poeira nos olhos. Essa de tapar o sol com a peneira, pode aplicar-se às politiquices e aos politiqueiros da nossa praça, mas eu sou antiga como o escaravelho e deixei-me de andar em cantigas há muito tempo…
Pensavas então que não te entendia? Apenas fui fazendo de conta que ignorava… porque me convinha ignorar… mas por agora é tudo, nada mais a dizer…
Utilizei as cartas que tinha para jogar e fui jogando até ao momento que tenho força para te dizer que podes ir dar uma volta… e grande, para demorar muito… Sabes? Passaste as marcas e de prazo: fora de moda!
Fui ler o maço de cartas que me escreveste durante muitos anos. Que confusão de sentimentos! E achas que eu ia acreditar em tanta palavra com significado duvidoso? Usaste-me. Mas tudo é até um dia… e às vezes até ao dia que nos convém…
Quando mexemos no passado, mesmo que seja um passado recente, ficamos sempre com a disposição perturbada; se há coisa que me irrita, é recordar certas pessoas em quem confiei e que me usaram como quem põe um chapéu ou um par de luvas… Claro que és mesmo tu! Embora haja muita Maria na terra… a Maria a que me refiro és mesmo tu… ou haveria alguém com tanta “lata” como tu? … No entanto, acho muito divertido recordar-te. Tens sempre uma opinião sobre tudo, criticas todos e és sempre a pessoa mais rápida a lamentar a sua condição física, emocional e até económica… realmente se não existisses, terias de ser inventada… Comparo-te a certos dirigentes, que de nariz empinado, se fazem passar por excelentes pessoas… porque nunca ninguém lhes contou a história do “Rei que ia em ceroulas…”


28.06.08

sexta-feira, junho 20, 2008

IRREFLECTIDAS COGITAÇÕES


Parei. Tudo parou em meu redor. Sinto-me como que atordoada como se tivesse sofrido uma pancada forte na cabeça. Sinto-me às vezes desta maneira, sem que isso queira dizer que estou deprimida… mas se calhar até estou…. Mas na verdade o que estou é triste.
Perguntaste-me porque havia escolhido o deserto para caminhar e eu respondi-te que no deserto não deixamos peugadas… e sempre esses porquês! Porque… porque não estava interessada em ser seguida… e tu segues-me e persegues-me por toda a parte…
Detesto gente intrometida e tu primas por sê-lo. Perguntas onde estou, onde vou, com quem estou ou de onde venho ou com quem estive… não queiras saber mais do que aquilo que pretendo dizer…
Essa justificação é mesmo tendenciosa… então é por gostares muito de mim que queres saber tanto?... Isso é treta! Sabes? não acredito em nada disso.
Em todo o meu interior choro, são rios e rios de lágrimas que se esgotam dentro de mim. É a tal tristeza que não sei definir, sinto-me como se chorasse pela minha perda.
Se ao menos não houvesse a pessoa errada, se ao menos pudesse gritar que aquela lápide é a nossa e não a de desconhecidos… amar assim, tão infinitamente, quem nem repara que estamos do outro lado da rua… por isso penso que todo o trajecto pelo deserto foi em vão…
Será que vou resistir a mais esta prova? Essa é a pergunta que faz latejar a minha testa e para a qual nem tu nem ninguém encontra resposta… mas talvez baste dizeres, de lá dos confins da minha memória, que estarás comigo… mesmo nesta distância incomensurável…


20.06.08

sábado, junho 14, 2008

DA TRAPEIRA DAS ÁGUAS-FURTADAS


Fui visitar as águas-furtadas da minha imaginação e deixei que o tempo passasse sem que olhasse o marcador do tempo, para que à vontade pudesse desfrutar de todo o tempo que me restava…
Da trapeira, com teias de aranha, olhei a distância que o horizonte me proporcionava e deixei que a greta de luz do sol entrasse e me deixasse ver as muitas palavras que havia deixado, muito alinhadas, naquele tempo, antes de ter partido… e regressado…
Como separador das minhas palavras, sempre o teu nome. O único nome que queria esquecer.
Passei os olhos por tantas palavras e reconheci algumas… foram as que me devolveste em tempo, por achares fora do tempo essas palavras que te dera… mas eram tão sinceras…
Sacudi o pó do banco ao canto, perto da trapeira, e sentei-me com a cabeça encostada na minha imaginação. Com os olhos fechados e numa posição relaxante, fui revivendo todas as etapas que havia guardado em tempos… mas sempre tu presente, mesmo que o não queira…
Aquele poço escuro, de um escuro acinzentado, como se fora o túnel de um vulcão. Muito comprido. Parecia que deslizava no ar, sempre a descer e sem vontade de parar… um sono inexplicável, uma perda de força progressiva… uma vontade a desvanecer como a chama de uma lamparina onde o azeite já se esgotara… era eu!
Longe, muito longe aquele portão enorme. Metálico? Possivelmente. Mas de um verde muito escuro, mesmo muito escuro, como se tivesse sido misturada tinta preta para escurecer o verde…
As mãos abertas encostaram-se ao portão. Será que o queria abrir? Jamais o saberei. De repente, senti-me impelida para o túnel e subi-o, não sei explicar como…
Todas aquelas vozes nada significavam… dormia… estava tudo tão longe… como tu estás agora, que nem pensas como estás em meu pensamento, mesmo contrariando a minha vontade…
Abri os olhos. Os raios de sol que atravessavam a trapeira brincavam na minha cara e voltei a olhar para as filas de palavras alinhadas no outro lado das águas-furtadas… e também recordei algumas palavras que ouvi naquela madrugada “está viva!”. “Sabe? Entrou em coma, mas agora está tudo bem.”
Não quero recordar mais nada. Levanto-me e deixo a minha imaginação só, nas águas-furtadas da minha imaginação, a receber os raios de sol que passam pela trapeira com teias de aranha… vou esperar que me recordes…


14.06.08